A Cúpula de Ancara amplia gastos militares, reforça apoio à Ucrânia, mira a Rússia e o Irã e aprofunda a lógica de preparação para novas guerras, escreve o dirigente comunista José Reinaldo Carvalho
Por José Reinaldo Carvalho (*) – A Cúpula de Ancara da Otan, realizada na terça e quarta-feira (8), marcou mais um avanço da militarização internacional sob liderança do bloco atlântico. Ao aprovar novas metas de gasto militar, ampliar o apoio financeiro e bélico à Ucrânia, lançar iniciativas tecnológicas voltadas ao combate com drones e endurecer sua posição contra Rússia e Irã, a Organização do Tratado do Atlântico Norte deu um novo passo na preparação de guerras e na consolidação de uma lógica permanente de confronto.
A reunião, apresentada oficialmente como um esforço de defesa coletiva, expôs na prática o papel da Otan como instrumento de pressão geopolítica, expansão militar e sustentação do complexo industrial-armamentista. A Declaração Final de Ancara, somada aos anúncios feitos durante a cúpula, reforça uma arquitetura de segurança baseada não na distensão, na diplomacia ou na cooperação entre os povos, mas no aumento acelerado dos arsenais, na contenção de adversários estratégicos e na subordinação dos orçamentos públicos aos interesses da indústria bélica.
O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, anunciou uma nova rodada de contratos de defesa de grande escala e cobrou dos países europeus, associando-se a Trump, maior rapidez na execução dos planos nacionais para alcançar metas robustas de gastos militares. A mensagem central foi inequívoca: os governos do continente devem ampliar investimentos em armas, sistemas antimísseis, drones, infraestrutura militar e capacidade operacional, mesmo em meio à pressão social provocada pelo encarecimento da vida, pela crise dos serviços públicos e pelo desgaste dos sistemas de proteção social.
Essa orientação revela uma contradição profunda. Enquanto as populações europeias enfrentam dificuldades com custo de vida, moradia, energia, alimentação e serviços essenciais, bilhões de euros são deslocados para alimentar uma máquina de guerra que se expande em ritmo acelerado. O dinheiro público que poderia fortalecer saúde, educação, previdência e políticas sociais passa a financiar contratos militares, encomendas de armamentos e programas tecnológicos voltados ao conflito.
A presença do presidente norte-americano Donald Trump na cúpula reforçou a dimensão hegemônica desse processo. Ao pressionar aliados europeus a elevarem seus gastos militares e comprarem mais equipamentos dos Estados Unidos, Washington reafirmou sua posição de comando sobre a aliança, em meio a indisfarçáveis discrepâncias com alguns líderes presentes. A militarização do continente europeu, nesse contexto, não atende apenas a uma suposta necessidade defensiva: ela também fortalece a indústria bélica norte-americana.
Um dos principais pontos da cúpula foi o compromisso de entregar 70 bilhões de euros, aproximadamente 80 bilhões de dólares, em ajuda militar à Ucrânia em 2026. O documento também estabelece a manutenção de “níveis pelo menos equivalentes” de suporte financeiro em 2027, com parte significativa dos recursos articulada por meio de fundos e empréstimos vinculados à União Europeia. A decisão amplia a participação estrutural da Otan no conflito e reduz ainda mais o espaço para uma solução negociada.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, participou do encontro como convidado e buscou avançar em negociações para obter novas baterias dos sistemas antimísseis Patriot, além da transferência de licenças de fabricação desses equipamentos. A presença de Zelensky em Ancara simbolizou a centralidade da guerra na Ucrânia para a estratégia atual do bloco, que mantém o conflito como eixo de sua expansão política, militar e orçamentária.
A Declaração Final também reafirmou o compromisso dos 32 países-membros com o Artigo 5º da Carta da Otan, segundo o qual um ataque contra um integrante da aliança é considerado um ataque contra todos. Ao mesmo tempo, o texto classificou formalmente a Rússia como “ameaça de longo prazo para a segurança e estabilidade euro-atlântica”. Trata-se de uma formulação que institucionaliza a lógica de confronto prolongado e dificulta qualquer reconstrução de canais diplomáticos sólidos entre o Ocidente e Moscou.
O endurecimento contra a Rússia se combina a uma postura igualmente agressiva em relação ao Irã. A declaração afirma explicitamente que “o Irã jamais poderá possuir uma arma nuclear” e inclui um trecho sobre a necessidade de garantir a liberdade de navegação comercial e o tráfego seguro no Estreito de Ormuz. A menção ocorre em um contexto de escalada de agressões dos Estados Unidos contra o Irã e após o colapso do Memorando de Entendimento anunciado por Donald Trump diretamente na cúpula.
Ao incorporar o Estreito de Ormuz à agenda estratégica do encontro, a Otan desloca seu raio de ação para uma das regiões mais sensíveis do planeta. A defesa da segurança marítima, apresentada como preocupação com o comércio internacional, aparece associada à ampliação de frentes de pressão militar e política no Oriente Médio.
Para os países do Sul Global, historicamente atingidos por sanções, intervenções e bloqueios, esse movimento reforça a percepção de que a aliança atlântica atua como instrumento de imposição da ordem geopolítica liderada pelas potências imperialistas ocidentais.
Outro anúncio de grande impacto foi a oficialização da iniciativa Drone Edge, programa comercial e militar voltado ao desenvolvimento de tecnologias de contra-ataque e defesa contra drones. A Otan aprovou investimento conjunto superior a US$ 40 bilhões nos próximos cinco anos para essa área e estabeleceu a meta de multiplicar por cinco o número de operadores de drones treinados até o fim de 2027.
A iniciativa confirma que a guerra contemporânea se tornou um campo de aceleração tecnológica permanente. Drones, sistemas de interceptação, inteligência artificial aplicada ao combate, vigilância e defesa aérea passam a ocupar o centro da doutrina militar do bloco. Sob o argumento da adaptação às novas ameaças, a Otan aprofunda uma corrida armamentista que tende a produzir mais instabilidade, mais gastos militares e mais riscos de confrontos diretos ou por procuração.
Criada em 1949, com 12 países fundadores, a Otan buscou justificar sua existência durante décadas pelo contexto da Guerra Fria. Com o fim da União Soviética e o encerramento daquele ciclo histórico, a aliança deveria ter sido dissolvida. Ocorreu o contrário: o bloco se expandiu, incorporou novos membros, avançou para o Leste Europeu e passou a atuar em diferentes frentes globais.
Hoje, com 32 integrantes, a Otan deixou de ser apenas uma estrutura militar regional e se transformou em plataforma de projeção estratégica das potências ocidentais. Seu fortalecimento é uma tentativa de bloquear a construção de uma ordem multipolar e uma nova governança global equilibrada e estável.
A Cúpula de Ancara deixou claro que a aliança atlântica não caminha para a paz, mas para a perpetuação do conflito como método de organização da política internacional. Ao ampliar a ajuda militar à Ucrânia, classificar a Rússia como ameaça estrutural, endurecer a posição contra o Irã, intervir no debate sobre a segurança do Estreito de Ormuz e lançar um programa bilionário voltado à guerra de drones, a Otan reafirma sua natureza belicista.
Para a América Latina, a África e a Ásia, regiões marcadas por experiências de colonialismo, intervenção estrangeira e dependência econômica, a expansão da Otan representa uma ameaça à soberania dos povos. A defesa de uma nova governança mundial, baseada no respeito ao direito internacional, na autodeterminação nacional e na cooperação entre Estados, exige a superação de estruturas militares, como a Otan, que preservam privilégios geopolíticos e alimentam conflitos permanentes.
A extinção da Otan, nesse sentido, não é uma palavra de ordem abstrata, mas uma exigência histórica para a construção de uma paz verdadeira. Enquanto existir como braço armado de uma ordem internacional desigual, a aliança continuará convertendo crises políticas em oportunidades de militarização, orçamentos públicos em contratos bélicos e tensões regionais em novos riscos de guerra global.
(*) Jornalista, editor internacional, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do PCdoB e presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz)