GEOPOLÍTICA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Nova estratégia dos EUA amplia ofensiva contra a América Latina

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Atualização da Doutrina Monroe recoloca a região no centro da cobiça imperialista pela hegemonia global

Por José Reinaldo Carvalho (*) – A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos marca uma radicalização ulterior na política de Washington para a América Latina e o Caribe. O texto explicita uma reconfiguração estratégica que recoloca o hemisfério ocidental no centro das prioridades do poder estadunidense. Sob a retórica da segurança, do combate ao narcotráfico, da contenção migratória e da defesa de “valores democráticos”, reaparece uma concepção antiga: a de que a América Latina constitui uma zona natural de domínio dos Estados Unidos, subordinada aos seus interesses econômicos, políticos, militares e geopolíticos.

O significado mais profundo dessa estratégia está na atualização da Doutrina Monroe. O que no século XIX foi apresentado como uma barreira à intervenção europeia nas Américas converteu-se, historicamente, em fundamento para sucessivas intervenções dos próprios Estados Unidos no continente. Agora, sob a formulação de um “corolário Trump”, a doutrina ganha linguagem contemporânea, mas conserva seu conteúdo essencial: Washington se atribui o direito de definir os limites da soberania regional, estabelecer quem pode governar, quais alianças são aceitáveis, quais projetos econômicos devem prevalecer e quais países serão classificados como ameaças.

Essa mudança surge em um contexto de declínio relativo da hegemonia norte-americana no sistema internacional, de crescimento da China como potência econômica e tecnológica, de resistência da Rússia à ordem unipolar e de emergência do mundo multipolar. Para os Estados Unidos, retomar o controle político da sua vizinhança hemisférica torna-se uma etapa de recomposição de poder global. A América Latina, nesse desenho, deixa de ser apenas uma área de influência histórica e passa a ser tratada como plataforma estratégica para a disputa mundial contra rivais de peso.

A estratégia indica que o hemisfério deve permanecer estável segundo os critérios de Washington, livre de presença considerada hostil de potências externas e alinhado às prioridades norte-americanas em segurança, comércio, energia, cadeias produtivas e migração. Na prática, esse enquadramento transforma a soberania latino-americana em variável subordinada à segurança dos Estados Unidos. Qualquer aproximação com a China, a Rússia ou outros polos de poder pode ser lida como ameaça. Qualquer governo que busque autonomia em política externa, controle nacional de recursos estratégicos ou integração regional independente pode ser enquadrado como problema de segurança.

É nesse ponto que a retórica do “narcoterrorismo” assume papel relevante. Ao fundir crime organizado, terrorismo, migração e disputa geopolítica em uma mesma categoria, Washington cria uma justificativa elástica para ampliar sua presença militar, impor sanções, pressionar governos e legitimar ações unilaterais. A Operação Lança do Sul, anunciada como iniciativa de combate a redes criminosas no hemisfério ocidental, deve ser compreendida dentro dessa moldura mais ampla. O problema não é reconhecer a gravidade do narcotráfico, que afeta dramaticamente sociedades latino-americanas. O problema é transformar esse fenômeno em pretexto para substituir a cooperação soberana por tutela militar externa.

O Comando Sul dos Estados Unidos, com atuação sobre a América do Sul, a América Central e o Caribe, ganha novo protagonismo. O envio de meios navais, aeronaves, sistemas não tripulados e forças de apoio à região revela que a estratégia não se limita à diplomacia. Ela incorpora instrumentos de intimidação militar e de pressão permanente. A presença de belonaves de grande porte, inclusive porta-aviões, em áreas próximas à Venezuela e ao Caribe funciona como mensagem direta a governos considerados adversários e como aviso indireto a toda a região.

A Venezuela aparece como o caso mais grave e revelador. A agressão militar de 3 de janeiro, culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores, deve ser analisada como expressão extrema até agora da nova etapa intervencionista. Não se trata apenas de uma operação contra um governo específico, mas de um precedente de enorme gravidade para todo o continente. Quando uma potência estrangeira se arroga o direito de atacar o território de um país soberano e capturar seu chefe de Estado, rompe-se qualquer aparência de respeito ao Direito Internacional. O princípio da não intervenção é substituído pela força bruta. A mensagem transmitida aos demais governos é inequívoca: a divergência política em relação a Washington pode ser tratada como ameaça militar.

Esse episódio também revela a fragilidade das instituições multilaterais diante da escalada unilateralista. A Organização dos Estados Americanos, historicamente subordinada aos ditames dos Estados Unidos, mostra-se incapaz de funcionar como espaço efetivo de proteção da soberania regional. A ONU, por sua vez, enfrenta os limites impostos pelo peso dos Estados Unidos no sistema internacional. A consequência é a normalização de uma ordem na qual a legalidade internacional vale seletivamente, enquanto a capacidade de coerção define o alcance real dos direitos dos Estados.

A Colômbia e o México também se tornaram alvos de retórica intervencionista. No caso colombiano, as tensões com o governo de Gustavo Petro e o apoio aberto de setores norte-americanos a candidaturas de direita e extrema direita indicam uma tentativa de influenciar os rumos do processo político. A acusação de complacência com o crime organizado, combinada a sanções, cancelamento de certificações e pressões diplomáticas, cria um ambiente de constrangimento permanente. Já no México, a retórica sobre cartéis e segurança fronteiriça abre espaço para ameaças de operações extraterritoriais, corroendo a soberania de um país que tem sua política interna permanentemente atravessada pela relação assimétrica com Washington.

As interferências eleitorais tornaram-se parte orgânica dessa estratégia. Em Honduras, a declaração pública de apoio a candidato alinhado à direita e a ameaça de corte de ajuda caso o resultado não correspondesse às preferências de Washington configuraram uma pressão direta sobre a vontade popular. Mesmo quando formalmente não há tropas em movimento, a ameaça econômica e diplomática opera como instrumento de coerção. O eleitorado passa a votar sob o peso de uma advertência externa: escolher determinado caminho pode significar punição.

Na Argentina, a ajuda financeira ao governo de Javier Milei, associada ao respaldo político explícito de Donald Trump, mostrou outro mecanismo de intervenção: a sustentação econômica de aliados ideológicos em momentos eleitorais decisivos. O apoio a uma agenda ultraliberal, marcada por cortes profundos, privatizações, desregulação e ajuste social, foi apresentado como parceria estratégica. Mas seu efeito concreto foi fortalecer um projeto político alinhado aos interesses de Washington e aos setores financeiros internacionais, em detrimento da soberania econômica argentina.

Na Colômbia, a aproximação entre a Casa Branca e setores da extrema direita ocorre em meio ao desgaste das relações bilaterais e às acusações contra o governo Petro. O risco é que a eleição presidencial seja contaminada por uma lógica de alinhamento automático: candidatos simpáticos à agenda norte-americana seriam apresentados como responsáveis e confiáveis, enquanto forças progressistas, nacional-populares ou soberanistas seriam enquadradas como risco à segurança regional. Esse tipo de interferência não precisa assumir a forma clássica de fraude para produzir efeitos profundos. Basta alterar as condições políticas, midiáticas e diplomáticas da disputa.

No Peru, a instabilidade institucional, a sucessão de presidentes, o enfraquecimento da representação popular e a ascensão de alternativas conservadoras e autoritárias criam terreno fértil para a influência externa. A crise peruana expressa uma combinação perigosa de deslegitimação democrática, fragmentação partidária e captura institucional por interesses conservadores. Nesse cenário, a estratégia dos Estados Unidos tende a privilegiar forças capazes de garantir alinhamento geopolítico, abertura econômica e contenção de movimentos sociais. A democracia passa a ser defendida apenas quando confirma os resultados esperados pelo centro imperial.

Essa é uma das contradições centrais da nova estratégia. Em nome da democracia, Washington aprofunda práticas que restringem a democracia. O apoio à extrema direita, a legitimação de líderes autoritários, a pressão sobre sistemas judiciais, a manipulação de sanções e a interferência em eleições revelam uma concepção instrumental: democracia é o nome dado aos regimes alinhados aos Estados Unidos; ameaça autoritária é o rótulo reservado aos governos que resistem à subordinação. O critério não é a vontade popular, mas a adesão ao projeto geopolítico norte-americano.

A ascensão da extrema direita latino-americana deve ser compreendida nesse contexto. Não se trata apenas de fenômeno doméstico, embora tenha raízes nacionais profundas. Trata-se também de uma engrenagem continental. Partidos, lideranças, fundações, redes digitais, think tanks, grupos religiosos, empresários e operadores de comunicação constroem uma internacional reacionária que compartilha métodos e objetivos: criminalizar a esquerda, destruir direitos sociais, atacar instituições democráticas quando estas não servem aos seus interesses e alinhar os países da região à agenda estratégica dos Estados Unidos.

No Brasil, essa ofensiva assume contornos específicos. O tarifaço imposto por Trump contra produtos brasileiros, as sanções com base na Lei Magnitsky contra um integrante do Supremo Tribunal Federal, a pressão política em torno do julgamento de Jair Bolsonaro e a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas globais compõem um quadro preocupante. Cada medida, isoladamente, é apresentada por Washington como resposta comercial, defesa de direitos humanos ou combate ao crime organizado. Em conjunto, porém, elas revelam uma arquitetura de pressão sobre o Estado brasileiro.

O tarifaço não foi apenas uma decisão econômica. Ao atingir exportações brasileiras em meio a tensões políticas, funcionou como instrumento de intimidação. A Lei Magnitsky, aplicada a um magistrado do Supremo Tribunal Federal, representou uma tentativa de projetar jurisdição política norte-americana sobre o funcionamento das instituições brasileiras. A mensagem foi grave: decisões judiciais tomadas no Brasil, segundo a Constituição brasileira, poderiam ser punidas por uma potência estrangeira quando contrariassem interesses ou aliados de Washington.

A designação de organizações criminosas brasileiras como terroristas globais também exige atenção. O combate ao PCC e ao Comando Vermelho é tarefa urgente do Estado brasileiro. Essas organizações produzem violência, corrompem instituições, dominam territórios e expandem redes transnacionais. Mas classificá-las a partir do aparato norte-americano de contraterrorismo abre riscos adicionais. O enquadramento pode justificar sanções extraterritoriais, pressões sobre bancos, cooperação assimétrica de inteligência e, no limite, narrativas favoráveis a ações externas sob pretexto de segurança. O Brasil precisa combater o crime organizado com firmeza, mas sem aceitar a transformação do problema em porta de entrada para ingerência.

O risco de interferência, mesmo indireta, no processo eleitoral brasileiro de 2026 é real. Ele não necessariamente se dará por intervenção ostensiva. Pode ocorrer por pressões econômicas, campanhas digitais, apoio político a setores da oposição, instrumentalização de sanções, manipulação de temas de segurança pública e tentativa de associar o governo brasileiro à leniência com o crime. O objetivo seria criar um ambiente político favorável à extrema direita e hostil a qualquer projeto de soberania nacional, integração regional e política externa independente.

Cuba ocupa lugar especial na ofensiva do imperialismo estadunidense. O país enfrenta há décadas o bloqueio econômico, comercial e financeiro dos Estados Unidos, mas a nova etapa eleva a coerção a patamar ainda mais grave. O bloqueio energético, somado às sanções tradicionais, busca estrangular a economia cubana em seu ponto mais sensível: a capacidade de garantir eletricidade, transporte, abastecimento e funcionamento básico da vida cotidiana. A pressão sobre combustíveis, transações financeiras e parceiros externos recai sobre a população, ampliando apagões, escassez, dificuldades sanitárias, migração e sofrimento social.

As ameaças explícitas de agressão militar e derrubada do governo cubano tornam esse quadro ainda mais perigoso. A linguagem de “mudança de regime”, quando combinada a sanções de máxima pressão e movimentação militar no Caribe, deixa de ser retórica abstrata. Ela produz instabilidade, incentiva setores internos e externos a apostar no colapso e aumenta o risco de incidentes que possam servir como pretexto para uma escalada. A experiência histórica demonstra que políticas de bloqueio produzem penúria, instabilidade e tensão.

A ofensiva contra Cuba tem ainda outro significado. Ao mirar Havana, Washington busca atingir um símbolo de resistência à hegemonia norte-americana no continente. Desde 1959, Cuba representa, para os Estados Unidos, a afronta maior: um pequeno país caribenho que sobreviveu a invasões, sabotagens, isolamento diplomático, sanções e campanhas permanentes de desestabilização. Derrubar o governo cubano teria, para a extrema direita norte-americana e latino-americana, valor simbólico continental. Seria apresentado como demonstração de que nenhum projeto socialista, soberano ou anti-imperialista pode sobreviver no hemisfério.

Os impactos diplomáticos interamericanos já são visíveis. A região passa a viver sob maior polarização. Governos alinhados a Washington tendem a apoiar ou silenciar diante das pressões. Governos progressistas ou soberanistas buscam denunciar a ingerência, mas enfrentam custos econômicos e diplomáticos. Países intermediários, dependentes de comércio, crédito, remessas e cooperação em segurança, calculam cada gesto para evitar retaliações. O resultado é o enfraquecimento dos mecanismos regionais autônomos e a dificuldade de construir respostas coletivas.

A integração latino-americana, que poderia servir como escudo político, permanece fragmentada. Celac, Unasul, Alba, Mercosul e outros espaços enfrentam limitações derivadas de mudanças de governo, divergências ideológicas e pressões externas. Essa fragmentação interessa aos Estados Unidos. Uma América Latina dividida é mais vulnerável a acordos bilaterais assimétricos, chantagens comerciais, sanções seletivas e operações políticas país por país. A velha lógica imperial continua operando: impedir que a região fale com voz própria.

No campo econômico, a estratégia norte-americana tende a reforçar dependência, reprimarização e ajuste social. O controle de cadeias críticas, energia, minerais estratégicos, infraestrutura digital, rotas marítimas e sistemas financeiros está no centro da disputa. A América Latina possui lítio, petróleo, gás, água, biodiversidade, alimentos e posição geográfica decisiva. Para Washington, permitir que esses recursos sejam articulados a projetos nacionais autônomos ou a parcerias com China e Rússia significa perder espaço estratégico. Daí a pressão para limitar investimentos chineses, condicionar financiamentos, controlar infraestrutura e subordinar políticas industriais.

As consequências sociais podem ser regressivas. A agenda econômica associada à extrema direita continental combina austeridade, destruição de direitos trabalhistas, privatizações, enfraquecimento do Estado, cortes em políticas públicas e abertura irrestrita ao capital externo. Na Argentina, a experiência de choque ultraliberal mostrou como o discurso de “eficiência” pode se converter em queda de renda, aumento da pobreza, precarização e conflito social. Quando esse modelo é impulsionado por apoio externo, a democracia social é sacrificada em nome da confiança dos mercados e da disciplina geopolítica.

A nova estratégia também busca redefinir o papel das Forças Armadas e dos aparatos de segurança na região. Ao tratar crime organizado e política externa como partes de uma mesma guerra hemisférica, Washington estimula doutrinas de segurança nacional que historicamente serviram para reprimir movimentos populares, criminalizar a oposição e justificar estados de exceção. A memória latino-americana é marcada por golpes, ditaduras, escolas de contrainsurgência e cooperação militar voltada contra inimigos internos. A atualização da Doutrina Monroe ameaça reativar esses mecanismos sob nova linguagem.

O discurso antiterrorista é particularmente perigoso porque amplia o campo do inimigo. Hoje, o alvo declarado são cartéis e redes criminosas. Amanhã, podem ser movimentos sociais, partidos de esquerda, governos soberanistas, sindicatos, organizações camponesas ou lideranças populares acusadas de vínculos indiretos, simpatias ideológicas ou tolerância com a desordem. A elasticidade do conceito permite sua politização. Quando tudo pode ser terrorismo, qualquer adversário pode ser tratado como alvo de guerra.

A rivalidade com China e Rússia atravessa todo esse processo. A nova estratégia busca impedir que potências extra-hemisféricas ampliem sua presença econômica, tecnológica, militar ou diplomática na América Latina. A China tornou-se parceira comercial central de diversos países da região, financiadora de infraestrutura e compradora de commodities. A Rússia mantém relações políticas, militares e energéticas com países anti-hegemônicos. Para Washington, conter essas relações é condição para recompor sua capacidade de liderança global. O hemisfério torna-se retaguarda estratégica para disputas maiores.

Essa lógica sugere que a ofensiva sobre a América Latina pode ser uma etapa preparatória. Antes de intensificar confrontos em outras frentes, os Estados Unidos buscam assegurar sua área de influência imediata. Controlar o continente significa garantir recursos, bases, votos em organismos internacionais, cadeias logísticas e alinhamento diplomático. A disputa mundial não se trava apenas no Indo-Pacífico ou na Europa Oriental; trava-se também na Amazônia, no Caribe, nos Andes, no Atlântico Sul, nos portos, nos cabos submarinos, nas reservas minerais e nos sistemas eleitorais latino-americanos.

Diante desse quadro, as forças democráticas, populares e anti-imperialistas enfrentam um desafio histórico. Não basta denunciar a agressividade norte-americana de forma abstrata. É necessário construir capacidade política, institucional, comunicacional e diplomática para defender a soberania. Isso inclui fortalecer a integração regional, diversificar parcerias internacionais, proteger processos eleitorais, regular plataformas digitais, combater o crime organizado com inteligência própria, reduzir dependências financeiras e afirmar uma política externa baseada na autodeterminação dos povos.

A resposta também precisa ser social. A extrema direita avança quando sociedades vivem insegurança, medo, desemprego, perda de direitos e descrença nas instituições. Se projetos progressistas não oferecerem soluções concretas para segurança pública, renda, moradia, trabalho, energia, transporte e serviços públicos, o terreno ficará aberto para aventuras autoritárias apoiadas de fora. A luta anti-imperialista, portanto, não pode se separar da luta por desenvolvimento, democracia social e melhoria efetiva da vida popular.

O Brasil tem responsabilidade especial. Como maior país da América Latina, potência ambiental, energética, agrícola e diplomática, o país é peça central na disputa continental. Uma política externa independente, orientada pela paz, pela integração regional e pela multipolaridade, contraria interesses de quem deseja uma região fragmentada e subordinada. Por isso, o Brasil será pressionado. A defesa da soberania brasileira não é tarefa apenas do governo, mas das instituições, dos partidos, dos movimentos sociais, da imprensa democrática e da sociedade civil.

O que está em jogo é a definição do lugar da América Latina no século XXI. A região será tratada como quintal estratégico de uma potência em busca de recomposição hegemônica ou afirmará seu direito a existir como sujeito político autônomo em uma ordem multipolar? Aceitará que eleições sejam condicionadas por ameaças externas ou defenderá a soberania popular? Submeterá seus recursos e economias a políticas imperiais ou buscará desenvolvimento com justiça social?

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos deve ser lida como alerta. Ela não inaugura o imperialismo norte-americano na América Latina, mas reorganiza seus instrumentos para uma etapa mais agressiva, militarizada e ideologicamente alinhada à extrema direita. A atualização da Doutrina Monroe pretende transformar o hemisfério em base de relançamento da hegemonia mundial dos Estados Unidos. O preço, para os povos latino-americanos, pode ser a desestabilização política, a restrição democrática, a regressão social, a submissão econômica e o retorno aberto da intervenção militar.

A história da América Latina, porém, também é história de resistência. Da luta anticolonial às revoluções nacionais, das mobilizações operárias e camponesas às vitórias democráticas recentes, os povos da região demonstraram repetidas vezes que não aceitam passivamente a tutela externa. A nova ofensiva imperialista exige lucidez, unidade e firmeza. Defender a soberania latino-americana, hoje, significa defender a paz, a democracia real, o desenvolvimento social e o direito de cada povo decidir seu próprio destino. 

(*) Jornalista, editor internacional, membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasi e presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz)

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