Em encontro histórico, Xi Jinping e Kim Jong Un reafirmam cooperação estratégica, soberania e parceria baseada em confiança política, escreve o dirigente comunista José Reinaldo Carvalho
Por José Reinaldo Carvalho (*) – A visita de Xi Jinping a Pyongyang reafirma uma das relações políticas mais sólidas do cenário internacional contemporâneo: a amizade indestrutível entre a República Popular da China e a República Popular Democrática da Coreia (RPDC). Mais do que um gesto diplomático, o encontro expressa a continuidade histórica de uma aliança forjada na luta comum, sustentada por convicções políticas compartilhadas e projetada para o futuro como eixo de estabilidade, soberania e desenvolvimento.
Em um mundo marcado por tensões geopolíticas, disputas econômicas e tentativas de imposição de modelos únicos de organização social, o fortalecimento da relação entre Pequim e Pyongyang assume significado estratégico. China e RPDC reafirmam, com clareza, que suas relações não se limitam à vizinhança geográfica nem a interesses conjunturais. Trata-se de uma parceria construída sobre confiança política, memória revolucionária, respeito mútuo e defesa de caminhos nacionais próprios para o socialismo.
A amizade entre os dois países tem raízes profundas. A memória das lutas compartilhadas na década de 1950 permanece como patrimônio político dos povos chinês e coreano. Essa herança é um fundamento vivo de uma relação que atravessou mudanças internacionais, pressões externas e transformações econômicas sem perder sua essência. A preservação dos memoriais, a valorização dos mártires e a transmissão dessa história às novas gerações indicam que a China e a Coreia Popular compreendem a memória como instrumento de continuidade política.
O encontro entre Xi Jinping e Kim Jong Un também reforça a dimensão partidária da aliança. O Partido Comunista da China e o Partido do Trabalho da Coreia (PTC) representam experiências distintas, mas convergentes, de construção socialista. Ambos reconhecem a importância da direção política, da formação ideológica, da disciplina organizativa e da centralidade do Estado na condução de projetos nacionais soberanos. A visita de Xi a uma instituição de formação de quadros do PTC simboliza esse vínculo elevado entre dois partidos comunistas, comprometidos com a preservação de suas tradições revolucionárias e com a adaptação do socialismo às peculiaridades de cada país.
Essa é uma dimensão decisiva. O socialismo chinês e o socialismo coreano não se apresentam como cópias mecânicas de modelos externos, mas como processos históricos enraizados em realidades nacionais específicas. A China desenvolveu um caminho próprio de modernização, combinando planejamento estratégico, inovação tecnológica e fortalecimento do papel dirigente do partido. A RPDC, por sua vez, sustenta uma trajetória marcada pela defesa da independência nacional, da segurança do Estado e da unidade política diante de pressões externas persistentes. Em ambos os casos, a soberania aparece como condição essencial para o desenvolvimento.
A cooperação prática entre a China e a Coreia Popular ganha, nesse contexto, relevância especial. O aprofundamento dos laços em setores como economia, comércio, agricultura, construção, ciência e tecnologia, saúde, transporte e formação de recursos humanos pode contribuir diretamente para o desenvolvimento econômico e social dos dois países. A retomada de conexões ferroviárias, aéreas e rodoviárias, bem como a ampliação dos intercâmbios educacionais e populares, aponta para uma agenda concreta de integração, circulação de conhecimento e fortalecimento dos vínculos entre os povos.
A aliança também possui importância geopolítica incontornável. Em uma Ásia atravessada por disputas militares, alianças extrarregionais e pressões sobre a Península Coreana, a coordenação estratégica entre China e RPDC funciona como fator de equilíbrio. Ao defenderem a soberania, a segurança regional e uma ordem internacional mais justa, os dois países se posicionam contra a lógica da hegemonia e da intimidação. Sua cooperação contribui para impedir aventuras militares, preservar margens de autonomia regional e afirmar o princípio de que os povos asiáticos devem ser protagonistas de seu próprio destino.
O fortalecimento dessa relação ocorre em um momento de emergência da multipolaridade. A ascensão da China, a reorganização das cadeias econômicas globais, o avanço de novas formas de cooperação Sul-Sul e a contestação crescente ao hegemonismo conferem novo peso à parceria com a RPDC. Para Pyongyang, a relação com Pequim é pilar estratégico de segurança, desenvolvimento e inserção internacional. Para a China, a amizade com a RPDC integra uma visão mais ampla de estabilidade regional e construção de uma comunidade internacional baseada em cooperação e benefício mútuo.
Os gestos simbólicos da visita de Xi Jinping a Pyongyang expressam essa densidade histórica. A homenagem à Torre da Amizade China-RPDC, a recepção calorosa preparada por Kim Jong Un, a presença das famílias dos dois líderes e o plantio conjunto de uma árvore perene condensam uma mensagem política clara: os laços entre os dois países devem permanecer vivos, renovados e transmitidos às próximas gerações. A simbologia não substitui a política concreta, mas ajuda a revelar sua profundidade.
A relação entre China e RPDC, portanto, deve ser compreendida como uma amizade estratégica de longo prazo. Ela combina história, ideologia, geopolítica, cooperação econômica e visão de futuro. Sua força reside justamente na capacidade de articular interesses nacionais com princípios comuns, soberania com solidariedade, desenvolvimento com identidade política e socialismo com características próprias.
Ao reafirmarem sua aliança, Xi Jinping e Kim Jong Un enviam uma mensagem que ultrapassa as fronteiras da Ásia. Em um cenário internacional instável, a amizade China-RPDC se apresenta como fator de continuidade, resistência e equilíbrio. Para os dois países, fortalecer essa parceria significa preservar uma herança revolucionária, ampliar a cooperação prática e sustentar a construção socialista segundo suas peculiaridades nacionais.
A visita a Pyongyang confirma que a amizade entre China e Coreia Popular não pertence apenas ao passado. Ela permanece como projeto político do presente e como aposta estratégica no futuro de construção de uma ordem mundial mais justa.
(*) Jornalista, editor internacional, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do PCdoB e presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz)