O embaixador Victor Cairo denunciou o bloqueio dos EUA e pediu ações concretas em defesa de Cuba e da paz
O embaixador de Cuba no Brasil, Victor Cairo, defendeu a solidariedade internacional ao povo cubano durante participação no Coneg da UNE, em São Paulo, e denunciou o bloqueio dos EUA contra a ilha, afirmando que Cuba precisa de “ações concretas” em defesa da paz, da soberania e da vida. As informações são do pronunciamento do embaixador e da União Nacional dos Estudantes.
O pronunciamento foi feito no último sábado (6), no contexto das homenagens ao centenário do comandante-em-chefe Fidel Castro, líder histórico da Revolução Cubana. O Coneg (Conselho Nacional de Entidades Gerais da UNE) é um dos principais fóruns de deliberação do movimento estudantil brasileiro, reunindo Diretórios Centrais dos Estudantes de todo o país para debater os rumos da entidade, da educação e da conjuntura nacional.
O embaixador Victor Cairo iniciou sua fala agradecendo à União Nacional dos Estudantes pelo convite para o evento, que classificou como importante por ser dedicado a lembrar os 100 anos de nascimento de Fidel. Ao longo do pronunciamento, o embaixador afirmou que Cuba atravessa “um dos momentos mais difíceis de sua história desde que conquistou a independência em 1959”.
O diplomata denunciou que o governo dos Estados Unidos mantém contra Cuba uma “prolongada guerra econômica, comercial e financeira por mais de 60 anos”. Ele também afirmou que Washington fortalece o bloqueio energético para “tentar sufocar a economia cubana”.
Cairo afirmou que a pressão contra Cuba tem dimensão econômica, política e comunicacional. Para o embaixador, “a guerra contra Cuba é multidimensional” e possui “um forte componente comunicacional, bem articulado e coeso” para convencer a opinião pública internacional de que uma intervenção seria uma resposta à crise no país.
O diplomata também atribuiu a situação humanitária enfrentada pela ilha à política dos Estados Unidos. “Enquanto Marco Rubio está satisfeito com a política hostil contra Cuba, o povo cubano sofre apagões diários, o funcionamento dos hospitais é difícil, o sistema educacional e de saúde é colocado em risco, a produção de alimentos, o acesso ao serviço de água e o transporte público são enfraquecidos”, afirmou.
Na sequência, Cairo questionou a legitimidade de sanções que atingem a população civil. “Que pessoa com o menor sentimento humanista poderia concordar com um poder como os Estados Unidos punindo coletivamente um povo inteiro?”, declarou.
Defesa da soberania cubana
O embaixador afirmou que Cuba não representa ameaça aos Estados Unidos, mas ressaltou o direito do país à autodefesa. “Cuba não é uma ameaça para os EUA, e nunca será. Mas Cuba tem direito à autodefesa”, disse.
Em outro trecho, Cairo afirmou que, caso os Estados Unidos escolham o caminho da agressão militar, encontrarão resistência. Segundo ele, “se a aventura militar é o caminho que os EUA escolhem, então eles encontrarão um povo digno, rebelde e preparado para lutar até as últimas consequências”.
Apesar das críticas duras à política norte-americana, o embaixador afirmou que Cuba deseja preservar a paz. “A guerra trará morte e destruição. Cuba quer paz. Somos um país de paz. Mas também somos um país com um profundo senso de nacionalismo, independência e rebelião”, declarou.
Pedido de solidariedade efetiva
Um dos pontos centrais do pronunciamento foi o apelo por solidariedade internacional. Cairo afirmou que Cuba necessita de declarações políticas, mas também de iniciativas materiais capazes de reduzir os impactos do bloqueio.
“Cuba precisa de uma solidariedade efetiva hoje. Cuba precisa hoje de discursos e declarações de apoio, mas também de ações concretas que ajudem a mitigar o impacto do cerco a que o país está sujeito”, disse.
O embaixador criticou a manutenção de Cuba na lista de países que patrocinam o terrorismo, classificando a medida como “uma ofensa à opinião pública”. Para ele, os Estados Unidos “protegeram os terroristas” e permitiram que atos contra Cuba fossem “financiados, organizados e realizados a partir de seu território”.
Cairo também denunciou medidas extraterritoriais, sanções contra autoridades cubanas e pressões sobre empresas que mantêm relações com a ilha. “Ameaçam e perseguem empresas para que não tenham relações com Cuba. Eles violam os princípios do livre comércio”, afirmou.
Ao defender uma reação internacional mais firme, o embaixador declarou que “defender Cuba é defender a humanidade”. Segundo ele, a solidariedade ao país caribenho significa defender “o direito das pessoas de serem livres e soberanas”.
UNE, Lula e o movimento de solidariedade
No discurso, Cairo mencionou o apoio do presidente Lula contra o bloqueio a Cuba. “O presidente Lula assumiu uma postura histórica em apoio a Cuba contra o bloqueio”, afirmou.
O embaixador também citou campanhas promovidas pelo Movimento de Solidariedade a Cuba para arrecadar recursos destinados à compra de painéis solares e medicamentos. Ele lembrou ainda que um representante da UNE participou do Comboio Nossa América em março de 2026.
“Nossa Embaixada sentiu o acompanhamento da UNE nesta batalha de ideias, que apreciamos profundamente”, disse Cairo.
Fidel Castro e a juventude latino-americana
Ao tratar do legado de Fidel Castro, o embaixador recordou a visita do líder cubano ao Brasil em 1999 e seus encontros com a UNE. Segundo Cairo, Fidel chamava a juventude à reflexão sobre os dilemas históricos da humanidade e alertava para os perigos do imperialismo e do capitalismo neoliberal.
“Fidel nos alertou para o crescente perigo do imperialismo e do capitalismo neoliberal. Fidel falou de uma América Latina e do Caribe unidos para enfrentar desafios comuns”, afirmou.
Cairo disse que os jovens latino-americanos e caribenhos vivem uma encruzilhada histórica. “Ou salvamos o mundo da predação ou voltamos a um regime neo-feudal, onde as elites de poder dos Estados Unidos conquistarão e farão dos outros povos da América seus vassalos”, declarou.
O embaixador também associou a homenagem ao centenário de Fidel à continuidade das lutas sociais. “No ano do centenário de Fidel, a melhor maneira de prestar homenagem é estudar e interpretar sua obra, e continuar a lutar pelos mais pobres e humildes da terra, por causas justas, pela liberdade, pela soberania e pelo direito dos povos de escolher seu próprio caminho”, disse.
Ao final, Cairo dirigiu um chamado direto à UNE. “Apelamos à UNE para liderar a mobilização do povo brasileiro nessa luta pela humanidade, paz e vida. Convocar as organizações estudantis do continente às ruas para defender a paz”, afirmou.
Coneg reuniu DCEs de todo o país
O Coneg da UNE foi aberto na sexta-feira, 5 de junho, na Unip-Vila Guilherme, em São Paulo, com representantes de Diretórios Centrais dos Estudantes de todas as regiões do país. A programação reuniu a mesa diretora da entidade e convidados para debater educação, soberania nacional e o papel da juventude na construção de um projeto de desenvolvimento para o Brasil.
A presidenta da UNE, Bianca Borges, destacou a atuação dos DCEs da USP, Unesp e Unicamp na defesa das universidades estaduais paulistas. “Queria saudar em especial os diretórios centrais dos estudantes da USP, Unesp e Unicamp que têm estado na linha de frente nesse enfrentamento fundamental contra Tarcísio de Freitas e por universidades verdadeiramente populares”, afirmou.
Educação, orçamento e disputa política
A pró-reitora de Extensão do IFRN, Samira Fernandes Delgado, defendeu a centralidade da educação como instrumento de transformação social. “Não caiam na falácia que não precisa estudar. Quem não precisa estudar é playboizinho que tem herança de milhões. É a educação que muda a nossa vida e o nosso país”, afirmou.
Vivian Mendes, da Unidade Popular, reconheceu conquistas ligadas à diversidade nas universidades, mas criticou o corte de R$ 1,6 bilhão no orçamento da educação. “Realmente foi com muita luta que a gente garantiu a diversidade na universidade, mas nós não podemos nos calar quando o governo apresenta um corte de 1,6 bilhão no orçamento da educação”, declarou.
O vereador de Campinas e ex-presidente da UNE, Gustavo Petta, defendeu um projeto nacional de desenvolvimento com distribuição de renda e direitos. Ele citou o presidente Lula ao afirmar que o país precisa superar os limites do neoliberalismo. “Nós não podemos nos contentar em administrar o neoliberalismo que fracassou no mundo inteiro, nós precisamos de um projeto mais ousado, de um projeto que rompa as amarras do neoliberalismo”, afirmou.
Jessy Daiane, do Movimento Sem Terra, definiu o Coneg como espaço de elaboração política e articulação entre o debate local e nacional. “O Coneg é um espaço de definição política que conecta o debate local ao nacional, levando e trazendo de volta as ideias que os DCEs estão construindo sobre os rumos do Brasil”, disse.
Íntegra do pronunciamento de Victor Cairo
As palavras do embaixador cubano no Brasil pelo centenário do comandante-em-chefe, Fidel Castro Ruiz.
São Paulo. 6 de junho de 2026.
Quero começar agradecendo à União Nacional dos Estudantes do Brasil pelo convite para este importante evento, dedicado a comemorar o centenário do nascimento do Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz, líder histórico da Revolução Cubana.
Cuba enfrenta um dos momentos mais difíceis de sua história desde que conquistou a independência em 1959. O governo dos EUA está sujeitando o povo cubano a uma prolongada guerra econômica, comercial e financeira por mais de 60 anos, e fortalecendo o bloqueio energético para tentar sufocar a economia cubana.
O secretário de Estado, um mitomaníaco incontrolável, usa o governo dos Estados Unidos para aplicar medidas de pressão máxima e gerar uma explosão social que serve de pretexto para justificar a intervenção militar.
A guerra contra Cuba é multidimensional. Essa guerra tem um forte componente comunicacional, bem articulado e coeso para fomentar a ideia na comunidade internacional de que uma guerra contra Cuba é a única maneira de acabar com a crise humanitária em nosso país. Os meios de comunicação, os porta-vozes mercenários e os congressistas anticubanos estão ligados para incentivar o uso da força.
Enquanto Marco Rubio está satisfeito com a política hostil contra Cuba, o povo cubano sofre apagões diários, o funcionamento dos hospitais é difícil, o sistema educacional e de saúde é colocado em risco, a produção de alimentos, o acesso ao serviço de água e o transporte público são enfraquecidos. Uma crise humanitária criada pela política e perversidade do governo dos Estados Unidos.
Que pessoa com o menor sentimento humanista poderia concordar com um poder como os Estados Unidos punindo coletivamente um povo inteiro?
Cuba não é uma ameaça para os EUA, e nunca será. Mas Cuba tem direito à autodefesa. E como disse a liderança da Revolução Cubana, se a aventura militar é o caminho que os EUA escolhem, então eles encontrarão um povo digno, rebelde e preparado para lutar até as últimas consequências. Se a capacidade militar de nosso povo não for suficiente para dissuadir Marco Rubio de seu sonho ultrapassado de conquistar Cuba, então a luta de guerrilha e o combate feroz serão uma fortaleza que terá muitas consequências não intencionais para o governo dos EUA.
A guerra trará morte e destruição. Cuba quer paz. Somos um país de paz. Mas também somos um país com um profundo senso de nacionalismo, independência e rebelião.
As ameaças de invasão militar estão se tornando mais frequentes. A escalada de sanções e agressões contra nosso povo está se tornando mais intensa, mas diante dessa tentativa de genocídio, só podemos repetir ao governo Trump o que Fidel disse a George Bush em maio de 2004:
Desde que você decidiu que nosso destino está lançado, tenho o prazer de dizer adeus como os gladiadores romanos que iriam lutar no circo: Ave César, aqueles que vão morrer o cumprimentam.
Só lamento não poder nem ver seu rosto, porque nesse caso você estaria a milhares de quilômetros de distância, e eu estarei na linha de frente para morrer lutando em defesa da minha terra natal.
Essa expressão de coragem representa todo revolucionário cubano.
Estimado e estimado:
Cuba precisa de uma solidariedade efetiva hoje. Cuba precisa hoje de discursos e declarações de apoio, mas também de ações concretas que ajudem a mitigar o impacto do cerco a que o país está sujeito.
Manter Cuba na lista de países que patrocinam o terrorismo é uma ofensa à opinião pública. Os Estados Unidos protegeram os terroristas e permitiram que atos de terrorismo contra Cuba fossem financiados, organizados e realizados a partir de seu território.
As medidas extraterritoriais do governo dos Estados Unidos tentam isolar nosso país. Procedimentos legais infundados estão sendo movidos contra o líder da Revolução Cubana, Raúl Castro. Eles impõem sanções ridículas e ineficazes às autoridades cubanas, incluindo o presidente.
Ameaçam e perseguem empresas para que não tenham relações com Cuba. Eles violam os princípios do livre comércio. Os Estados devem proteger seus empregadores. O genocídio contra Cuba não debe ser visto com indiferença.
As pessoas devem levantar suas vozes e fortalecer a solidariedade. Defender Cuba é defender a humanidade. É defender o direito das pessoas de serem livres e soberanas. Estes não são tempos tímidos. Estes são momentos de passos firmes e como o povo cubano está pronto para defender sua nação até as últimas consequências, caberá à comunidade internacional parar o crime contra Cuba e se opor firmemente aos EUA impondo o extermínio de uma nação inteira por interesses geopolíticos e eleitorais.
O presidente Lula assumiu uma postura histórica em apoio a Cuba contra o bloqueio. O Movimento de Solidariedade de Cuba promoveu campanhas de arrecadação de fundos para a compra de painéis solares e medicamentos para o povo cubano. Um representante da UNE participou do Comboio Nossa América em março de 2026. Nossa Embaixada sentiu o acompanhamento da UNE nesta batalha de ideias, que apreciamos profundamente.
Acompanhantes e colegas:
Em 1999, durante uma visita do Comandante-em-Chefe ao Brasil, realizou reuniões com a UNE. Desde então, ele nos chamou para refletir sobre a complexidade do momento em que a humanidade está vivendo. Fidel nos alertou para o crescente perigo do imperialismo e do capitalismo neoliberal. Fidel falou de uma América Latina e do Caribe unidos para enfrentar desafios comuns.
Agora, anos se passaram e estamos diante de um imperialismo em declínio que ameaça todos os povos do mundo. Nossos jovens latino-americanos e caribenhos estão em uma encruzilhada histórica: ou salvamos o mundo da predação ou voltamos a um regime neo-feudal, onde as elites de poder dos Estados Unidos conquistarão e farão dos outros povos da América seus vassalos.
Essa abordagem não é um exagero. Já há muitas evidências do que o imperialismo norte-americano é capaz de fazer com os recursos de nossas nações e como ele apoiou as ditaduras militares e a chamada Operação Condor na América do Sul.
Este governo dos EUA é uma ameaça à estabilidade global. Ele não se importa com o direito internacional. Ignore o multilateralismo. Ele defende a força para impor seus interesses. Ele se recusa a viver em harmonia. Impõe candidatos presidenciais, ameaça Estados com sanções e tarifas ilegais, apoia o genocídio independentemente da vida das pessoas.
O futuro está em risco. A construção de uma era de liberdade e conquista da classe trabalhadora, camponeses e estudantes está em risco se assumirmos a consciência de que a Pátria é a Humanidade e que é hora de uma marcha unida.
Se queremos que a humanidade sobreviva às loucuras de Donald Trump, se queremos que nossos filhos vivam em um mundo melhor, devemos salvar o simbolismo da solidariedade e do humanismo que Cuba representa. A América Latina e o Caribe e a dignidade de nossos povos terão que ser salvos. Não podemos esperar que seja tarde demais.
No ano do centenário de Fidel, a melhor maneira de prestar homenagem é estudar e interpretar sua obra, e continuar a lutar pelos mais pobres e humildes da terra, por causas justas, pela liberdade, pela soberania e pelo direito dos povos de escolher seu próprio caminho.
Apelamos à UNE para liderar a mobilização do povo brasileiro nessa luta pela humanidade, paz e vida. Convocar as organizações estudantis do continente às ruas para defender a paz.
Viva Fidel e a Revolução Cubana.
Pátria ou Morte, venceremos.