O inimigo do povo brasileiro é o imperialismo, escreve Galindo Luma
Por Galindo Luma (*) – “Ameaça e vandalismo: argentinos vivendo no Brasil relatam ataque xenofóbico.” Essa é a manchete de uma matéria do portal UOL, publicada em 22 de julho. Voltaremos a esse tema adiante.
O Brasil é um país de muitas qualidades, que ajudaram a construir nossa identidade nacional. Por outro lado, carregamos marcas evidentes de racismo, homofobia, misoginia e preconceito regional. Até pouco tempo, a xenofobia não aparecia de forma tão clara como preconceito estrutural em nosso povo.
Hoje, porém, uma campanha suja da extrema-direita brasileira, em aliança com os patriotas de esquerda, conseguiu convencer dezenas de milhões de brasileiros de que os argentinos são um povo presunçoso, violento, pernóstico e, sobretudo, racista. Seriam eles moralmente inferiores e, pasmem, até mesmo sionistas — mesmo quando a rejeição ao sionismo é maior na Argentina do que no Brasil. Essa última caracterização, ligada ao sionismo, vem mais da chamada esquerda ufanista, em relativa contradição com seus parceiros da extrema-direita, defensores do Estado de Israel.
Essa onda de histeria coletiva contra um povo veio à tona porque a seleção argentina esteve em seis finais de Copa do Mundo nos últimos 50 anos, enquanto o Brasil esteve em apenas três. Enquanto isso, o futebol brasileiro naufraga: são 24 anos sem vencer uma seleção de ponta da Europa e 24 anos sem ganhar um título mundial. O último título, de 2002, inclusive, ainda é contestado por suspeitas de favorecimento da arbitragem — tese com a qual não concordo integralmente. No penúltimo, em 1994, também existem reclamações de teor semelhante.
Nosso principal ídolo da atual geração, Neymar, infelizmente não conseguiu se firmar entre os maiores do mundo, apesar do talento inequívoco. Nesse vácuo, Lionel Messi — considerado o maior jogador da história, à exceção do Brasil — virou alvo. Foi transformado em garoto-propaganda de uma FIFA degenerada e corrupta e acusado de ser um sujeito inescrupuloso e racista. A régua moral usada contra ele não é aplicada a jogadores brasileiros com comportamentos semelhantes ou piores. Vinícius Júnior, no Real Madrid, vítima constante de racismo, nunca recebeu solidariedade dos jogadores brasileiros, mas dois famosos estupradores, Robinho e Daniel Alves, sim, receberam apoio.
Da mesma maneira, o povo espanhol e a sua seleção nunca foram alvo de campanha tão sórdida. Os haters de esquerda e direita preferem atacar os colonizados a atacar os colonizadores. E, obviamente, campanhas que viessem contra o povo espanhol também seriam inaceitáveis.
Uma foto falsa de Messi ao lado de Netanyahu, vestidos com a camisa da Argentina, foi fartamente divulgada pela esquerda patriota nas redes sociais, resultando no conhecido efeito manada, sem nenhuma checagem da veracidade do material divulgado. Quem ousasse dizer que a foto era falsa era chamado de racista, vira-lata, antipatriota e coisas do gênero. Era o gado de esquerda marchando unido.
Sem uma seleção à altura e sem um grande nome em destaque, parte dos brasileiros encontrou como válvula de escape odiar um povo e odiar um jogador. Mas isso não veio do nada. É consequência direta da campanha suja e cretina citada acima.
Papel de destaque nessa jornada abjeta tiveram os canais do YouTube, sites e demais plataformas das redes sociais da esquerda patriota. Repetiram à exaustão o receituário clássico do bolsonarismo, misturando mentiras, meias-verdades, teorias de conspiração e manipulação de vídeos e fotos por IA, tentando fazer crer que a Copa estava com vencedor já previamente acertado.
A bela seleção da Espanha — para a qual torci, por razões futebolísticas — faturou o título, desmascarando assim os delírios de bebedores de detergente e seus novos parceiros. Fizeram uma nojenta adaptação das frases curtas do bolsonarismo para demonizar o povo argentino, sua seleção e seu melhor jogador.
Para os que fazem oração para pneus, a eleição de 2022 no Brasil foi roubada; a Argentina comprou a Copa — aliás, comprou todas as três que venceu; Lula é amigo de ditadores; o povo argentino é ligado às excrescências políticas da extrema-direita; Lula é ligado ao PCC; Messi é um mafioso garoto-propaganda da FIFA.
É necessário dizer, obviamente, que nem todos os canais e sites de esquerda enveredaram por esse oportunismo populista. Nos maiores, ICL e Brasil 247, houve postura digna. Já a ESPN e o portal UOL Esporte, do início ao fim, combateram a xenofobia descarada de militantes da extrema-direita e da esquerda “ame-o ou deixe-o”.
Um desses canais, sabendo que o ódio gera engajamento, estampava a seguinte manchete: “Messi fez acordo com Trump, Milei, Netanyahu e Infantino” — exemplo clássico de clickbait dos fascistas das redes sociais. O conteúdo dessa manchete foi desenvolvido na live da forma mais descarada possível, sem nenhuma prova, sem nenhuma evidência apresentada, apenas bravatas de haters atrás de likes.
Outro canal, de um jornalista pelo qual eu tinha até um pouco de respeito, trouxe para sua live o discurso de um influenciador de extrema-direita — igualzinho ao deles próprios — atacando o povo argentino. E, na mesma live, comemoravam com felicidade extasiante: “estamos juntos”.
Centenas de milhões de comentários, para o orgasmo da esquerda patriótica, eram mais ou menos assim: “argentino tem que se foder”, “Argentina racista”, “Argentina só ganha no roubo”, “Messi comprou a FIFA”, “Messi vagabundo”, “Messi picareta”, “Messi mau-caráter”. E, quanto mais comentários, mais lives com conteúdo semelhante e, consequentemente, mais comentários. Assim, o ódio se generalizou nas redes sociais.
Houve um caso curioso de um humorista que, no UOL, entrevistou um estudioso que falou sobre o ódio no futebol — uma reportagem interessante. O detalhe é que o entrevistador foi um dos maiores propagadores de ódio contra a Argentina durante os 40 dias de Copa, e o entrevistado, coitado, não sabia disso.
Gian Oddi, para mim o mais qualificado comentarista de esportes, fez a seguinte postagem no Twitter: “Quando eu vejo quem são os porta-vozes dos detratores da Argentina e dos argentinos aqui nas redes sociais, eu tenho quase certeza de que eles estão equivocados — como costumam estar”.
Devo citar também que os chamados webcomunistas foram mais parcimoniosos, embora também embriagados de nacionalismo vulgar. Fizeram seu discurso de amor à pátria, mas repudiaram os ataques de xenofobia ao povo argentino.
A TV Globo e a CazéTV, me parece, também não embarcaram nessa onda de superioridade moral do povo brasileiro em relação aos argentinos. A propósito, Luisinho, bom narrador da CazéTV, virou alvo de ódio. Os haters não aceitavam que sua vibrante narrativa para gols não se aplicasse aos gols argentinos. Qualquer comentarista que elogiasse Messi recebia a fúria ensandecida dos patriotas.
Uma das principais razões para o ódio patriota vinha das comparações de Messi a Pelé nos programas esportivos. Para eles, fazer isso é pior do que estuprar uma freira num convento. No basquete, no tênis — apenas para ficar em dois exemplos —, grandes lendas foram superadas por novos astros.
Para essa turma, o assunto sequer pode ser debatido, seria uma profanação religiosa. E terminam transitando para uma postura abertamente reacionária. Não só não admitem o debate, que se encerrou no mundo — à exceção do Brasil —, como afirmam, sem medo de errar, que nunca vai surgir alguém como Pelé e torcem por isso. Qualquer pessoa arejada deveria torcer pela evolução no futebol, pelo surgimento de mais gênios como Messi, mas nossa esquerda patriótica criou um decreto: está proibido ter um novo Pelé.
Críticas corretas de cunho político a Messi, como não se pronunciar sobre temas importantes como o racismo, no caso do Rei, são relativizadas pelo contexto, no que convenhamos tem certa procedência.
Um fato curioso nos programas esportivos foi um veterano comentarista do SporTV, completamente constrangido, praticamente pedindo desculpas pelo que iria defender, dizer que para ele teria chegado a hora de quebrar o tabu, de que não era mais possível impedir o debate de qual dos dois gênios seria o maior, apresentando na sequência os extraordinários recordes quebrados pelo argentino. Mas não foi só ele, outros também, em outros canais, se libertaram da pressão e concluíram que sim, que debate seria pertinente.
Como sabemos, o ambiente propício ao ódio está nas redes sociais, e foi lá que os oportunistas e populistas de esquerda fizeram a festa e atraíram mais seguidores. Quanto mais ódio, mais engajamento.
Durante a Copa do Mundo, um influencer angolano, Marcos Felipe André, gravou vídeos pedindo aos brasileiros que não o chamassem de macaco. Por que os brasileiros estavam xingando esse pobre rapaz angolano de macaco? Porque ele, além de negro, estava torcendo por seu ídolo, Messi. Eu não vi nenhuma manifestação de apoio a ele vindo da esquerda patriótica. Talvez para parte deles um africano gostar de Messi e torcer para Argentina seja tão inaceitável que os ataques racistas a ele até possam ser ignorados ou relativizados. Com certeza, se fosse um ataque de um argentino a um africano negro vestindo a camisa do menino Ney, a reação teria sido outra, manchetes estariam estampadas em todos esses canais de YouTube comandados pela esquerda patriótica.
Ele disse aos prantos: “Quero deixar uma mensagem para alguns brasileiros. Eu sou africano, tenho orgulho da minha cor, das minhas raízes e da pessoa que sou”.
Para mim, o Brasil ainda tem os melhores jogadores de futebol do mundo, como também produz, em quantidade e qualidade, os melhores jogadores do mundo. Por isso, tem totais condições de se reerguer e ganhar a próxima Copa. Esse é o caminho para recuperar a dignidade do povo enquanto torcedor. O caminho escolhido pela extrema-direita e por setores da esquerda é um grave equívoco, o que demonstra falta de esperança no futuro e desespero no presente. Não se resgata a dignidade de um povo promovendo ódio a outro.
O ódio sempre foi a mais eficiente arma do fanatismo fascista na mobilização de grandes massas. O que se verificou no Brasil contra o povo argentino durante a Copa do Mundo é um sinal de perigo nessa direção.
A Argentina é pátria de Che Guevara, dos motoneros, das heroicas Mães da Praça de Maio, de Ricardo Darín, de Mercedes Sosa, de Cortázar, de Jorge Luis Borges, de Diego Maradona. Foi o país que colocou na cadeia os carniceiros da ditadura militar.
Os haters de esquerda e de direita — alguns conscientes, outros talvez inconscientes — conseguiram incutir na cabeça de milhões de brasileiros que a população da Argentina é racista, por conta de uma parte inescrupulosa de sua torcida praticar com regularidade esses atos indecorosos. É sempre bom lembrar que, em se tratando de racismo, nós, brasileiros, não estamos credenciados para nos apresentar como exemplo para o povo argentino.
Boa parte desses novos antirracistas no Brasil, para ficar apenas num exemplo, não tolera a ideia de colocar uma mulher negra como ministra do STF, pois dizem ser pauta identitária. Eu escrevi em outro texto que, a cada gol de Messi, a cada vitória da seleção argentina, surgiam novos milhões de militantes da causa antirracista, mas desconfio de que essa militância seria efêmera.
E por falar em luta antirracista, uma das grandes heroínas da luta pela independência da Argentina é uma negra, e existe uma estátua dela no charmoso bairro de San Telmo. Conhecida como La Madre de la Patria, Maria Remédios del Valle empunhou armas na guerra da independência, na qual perdeu o marido e os filhos.
O povo argentino foi vilipendiado e atacado durante 40 dias de Copa. Uma parte dos caçadores de cliques, extasiados diante do êxito de suas empreitadas, mesmo após o final da Copa, manteve ainda em seus canais discurso que gera ódio e monetização, tripudiando do povo argentino pela derrota na final contra a Espanha.
Faturaram e querem continuar faturando mesmo depois do final do evento.
Há estimativas de que vivam no Brasil entre 100 mil e 150 mil argentinos. Boa parte deles está agora ameaçada pela fúria desencadeada pelos patriotas de direita e de esquerda. A matéria do UOL registra ameaças de morte e até mesmo a perseguição a crianças argentinas nas escolas. Parte deles teme usar a camisa do próprio país. Alguns relatam ter medo de se assumirem enquanto argentinos. Uma mulher disse que, no trabalho, um colega falou que ela merecia ser amarrada num poste e chicoteada em praça pública. Alguns locais onde os argentinos se reuniram para assistir às partidas da Copa foram atacados.
O povo argentino, assim como o povo brasileiro, tem cultura e história de luta e resistência. Agora mesmo, estão tomando as ruas contra o líder fascista Javier Milei. Os oportunistas de esquerda tentaram colar a imagem de um povo como um todo ao repugnante presidente de plantão — como se, no período de Bolsonaro no Brasil, todos nós fôssemos fascistas.
Tentaram fazer crer também que o povo argentino odeia os brasileiros, o que é uma falsidade gigantesca. Eles gostam, sim, de nossa música, nosso Carnaval, nosso futebol, nosso povo, nossas praias — com as exceções, é claro. O Brasil recebeu, no ano passado, 9 milhões de turistas — um recorde histórico —, dos quais 3,4 milhões argentinos, mais de um terço do total.
Ao contrário de estimular ódio, devemos estimular a integração entre os povos, a famosa integração latino-americana. Mas essa bandeira foi jogada no lixo por parte de uma esquerda desvairada e oportunista, por conta de uma rivalidade criada artificialmente no futebol. Se você perguntar a um argentino qual é o seu principal rival, a maioria vai dizer que é a Inglaterra, que é o Uruguai, que é o Chile — e o Brasil vai aparecer depois.
Outro aspecto em que divirjo dos patriotas de direita e de parte dos patriotas de esquerda é a tese de que só se configura um autêntico patriota se ele torcer para a seleção da CBF. São parte dos mesmos que, no último mundial de clubes, vibravam quando times europeus derrotavam os brasileiros que não eram os seus. Ou que, na Libertadores, comemoram a derrota de times brasileiros contra outros latino-americanos. Ou os que se indignam contra uma pessoa de um determinado estado por torcer para time de outro. Portanto, um brasileiro que queira torcer para a seleção da França, da Espanha, do México ou da Argentina não merece ser estigmatizado como aconteceu na Copa.
A propósito, viveremos agora uma situação inusitada, milhões de brasileiros vão se juntar a torcedores argentinos “racistas” na copa Libertadores em curso, contra times pelos quais torcem contra no Brasil, boa parte, os mesmos que juraram não torcer para seleção “racista”.
É básico, é elementar: a pessoa tem direito de torcer para o time e para a seleção que quiser, que tenha o estilo de futebol que lhe agrada, que tenha o ídolo a quem reverencia. Brasileiros que torceram para Argentina foram chamados nas redes sociais de traidores, racistas, sionistas, babacas, otários, vagabundos etc. Melhor xingar do que refletir sobre os motivos de tantos brasileiros ignorarem a seleção canarinho.
Fã de Maradona, torci para a Argentina a partir da Copa de 86 e, em 2010, me encantei com o futebol espanhol e passei a torcer para a Fúria. Acho que se em algum momento tivermos uma seleção com futebol arte semelhante à de 82 — a última brasileira pela qual torci —, eu voltaria a torcer para o Brasil. Essa seleção, para mim, é a melhor da história do futebol, junto com a Holanda de 74.
Antes de concluir, devo lembrar que tivemos dois fatos marcantes do ponto de vista político na Copa: o técnico do Egito erguendo a gloriosa bandeira da Palestina e jogadores argentinos erguendo uma faixa com os dizeres de que as Malvinas são argentinas — duas manifestações importantes contra o imperialismo e contra o colonialismo. O detalhe: nossa esquerda patriótica ignorou a faixa argentina, e muita gente pediu a exclusão da Celeste da Copa pelo gesto. Ignoraram também uma oportuna fala de Messi sobre a dura situação dos trabalhadores argentinos, cujos salários não chegam ao final do mês.
Chegando ao final, diante da enxurrada de ódio, acho que, se mantivermos essa histeria coletiva, qualquer seleção latino-americana que no futuro vier a alcançar o êxito do futebol argentino poderá ser um novo alvo, da mesma forma que vimos agora.
O conforto espiritual momentâneo dado a patriotas de extrema-direita e de esquerda veio acompanhado desse sentimento de xenofobia. E eles sabiam exatamente o que estavam fazendo. Da extrema-direita, nenhuma novidade. Mas setores da esquerda terem ajudado a formar uma legião de fanáticos contra um povo vai ficar para a história. Ajudaram, de maneira irresponsável, a desviar o foco de nossos verdadeiros inimigos: o imperialismo, especialmente o norte-americano.
Gerações futuras de brasileiros podem, por muito tempo, carregar esse ódio por um povo inteiro, só porque uma parte dele promove atos condenáveis de racismo — esse flagelo que atinge o mundo quase todo. Infelizmente, a direita e parte da esquerda conseguiram convencer milhões de incautos de que “aquele povo não presta”.
Precisamos tomar cuidado com esse tipo de discurso. A história já nos mostrou para onde esse caminho leva. E todos nos lembramos do final.
(*) GalindoLuma é cronista mineiro/baiano, torcedor do Galo, amante de futebol, cerveja e carnaval