GEOPOLÍTICA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Mais vozes para uma multipolaridade diferente

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Construir uma ordem internacional mais equitativa exige defender a soberania e criar uma nova governança global que permita a todas as nações ter maior poder de decisão

Por Yesey Pérez López (*) – É essencial refletir sobre que tipo de multipolaridade queremos construir para o mundo de hoje. Foto: retirada do Pexels

Ainda nos lembramos de como alguns se apressaram em negar a possibilidade de um mundo multipolar sob o efeito da euforia teórica causada pelas mudanças ocorridas no início da década de 1990.

Contudo, as ideias do “fim da história” e outras noções semelhantes tornaram-se meras páginas da própria história. O mundo continuou a se transformar, e a existência de múltiplos centros de poder é agora inegável. Aquela miragem unipolar revelou-se o que era: pura fantasia.

Ainda hoje, apesar do ressurgimento de políticas que tentam impor — mais uma vez — a lei do mais forte, continuam a ser promovidas alternativas para construir uma ordem mundial diferente, mais equitativa… e melhor.

“Que tipo de multipolaridade o mundo precisa? Como os países participarão dela e a promoverão?”

A questão levantada em 1º de setembro pelo secretário-geral do Partido Comunista da China e presidente da República Popular da China, Xi Jinping, durante a reunião da Organização de Cooperação de Xangai Plus (OCX), realizada em Bishkek, capital do Quirguistão, abre um debate necessário: que tipo de multipolaridade precisamos construir para o mundo de hoje?

A existência de múltiplos “polos” não garante, por si só, o equilíbrio internacional. Dadas as necessidades do mundo — e seu potencial atual —, é essencial um modelo que, além de deixar de lado as hegemonias e as relações internacionais baseadas no confronto, permita a participação genuína de todas as nações.

Em busca de respostas para essa nova arquitetura global, o presidente Xi defendeu a construção de uma multipolaridade “igualitária e ordenada”, baseada em quatro pontos fundamentais: igualdade soberana e respeito mútuo; equilíbrio, ordem e Estado de Direito como requisitos indispensáveis; multilateralismo, diálogo e consulta como caminhos essenciais; e benefícios mútuos, ganhos compartilhados e inclusão como via para o desenvolvimento.

O fato de a soberania ser um dos pontos de partida não é acidental, já que esse é o conceito que coloca os países em pé de igualdade, independentemente de seu tamanho, sua riqueza ou sua população.

PEDRA FUNDAMENTAL: A DEFESA DA SOBERANIA

Construir um tipo diferente de multipolaridade está intimamente ligado à reforma da governança global.

Nesse contexto, a defesa da soberania tem sido um princípio fundamental para Cuba em sua proposta de democratização do cenário internacional. A ilha tem bons motivos para isso: resistiu à agressão imperialista dos EUA por mais de seis décadas, com um período recente de intensificação sem precedentes.

Essa política agressiva tem sido associada, precisamente, à decisão de uma nação de exercer seu direito legítimo de escolher o próprio caminho e de não aceitar regras impostas por um único “polo”.

Por isso, é necessário um novo sistema internacional no qual nenhum país, por mais poderoso que seja, determine que a forma de eliminar as diferenças seja por meio da força.

Em 15 de maio, na sessão aberta “Reformas da Governança Global e do Sistema Multilateral”, realizada no âmbito da Reunião de Ministros das Relações Exteriores do BRICS, Bruno Rodríguez Parrilla, membro do Bureau Político do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e chefe do departamento, afirmou que a reforma da governança global e do sistema multilateral é “uma necessidade política urgente e indispensável”.

O ministro das Relações Exteriores de Cuba elogiou o uso de moedas nacionais, o Novo Banco de Desenvolvimento e as iniciativas de integração soberana promovidas pelos BRICS, que descreveu como “passos concretos na direção certa”. Esses são exemplos de como aproveitar o potencial da cooperação econômica e comercial no Sul Global.

Multiplicar vozes e soluções é precisamente a resposta que o nosso tempo exige para a questão de quem decide as relações entre todos.

Alguns, no entanto, fingem não saber disso.

A COOPERAÇÃO COMO EXPRESSÃO DA MULTIPOLARIDADE

Apenas um dia após o discurso de Xi Jinping em Bishkek, a Embaixada da China em Havana respondeu às declarações de políticos norte-americanos que criticavam a cooperação entre China e Cuba. A declaração defendeu as relações da China com Cuba e com a América Latina e rejeitou as tentativas de interferir nas decisões dos países latino-americanos sobre suas relações com outros Estados.

É direito de Cuba e de outros países latino-americanos decidir com quem cooperam. Da mesma forma, é direito da China estabelecer relações com os países latino-americanos que assim o desejarem. Por que insistir em obstruir esse processo?

Esse é um exemplo de como o debate sobre cooperação, multilateralismo e relações baseadas na soberania retorna a um ponto de partida: a governança global não é assunto de um país ou de apenas alguns poucos.

É essencial promover uma verdadeira transformação que nos permita construir um equilíbrio no qual mais nações tenham voz, capacidade de escolha e possibilidades reais de participar das decisões que afetam o todo.

A visão de um mundo multipolar deve ir além da simples concentração de poder. Ela pode começar por ser, de uma vez por todas, a visão de um mundo com mais vozes.

(*) Yesey Pérez López é jornalista do Granma, órgão do Partido Comunista de Cuba

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