O centenário de Fidel Castro projeta seu pensamento, suas realizações e a luta de Cuba e dos povos do mundo pela soberania e o socialismo, escreve o dirigente comunista José Reinaldo Carvalho
Por José Reinaldo Carvalho (*) – Neste 13 de agosto, o povo cubano, os irmãos latino-americanos e toda a humanidade celebram o centenário de Fidel Castro, uma personalidade excepcional. É uma ocasião para expressar a gratidão pelo seu legado e pôr em relevo uma obra política que modificou o destino de Cuba, influenciou as lutas de libertação nacional e projetou o socialismo, o internacionalismo e a soberania dos povos como questões que permanecem candentes no século 21. Cem anos depois de seu nascimento, o pensamento e a obra de Fidel permanecem como referência porque as contradições que enfrentou — imperialismo, desigualdade, colonialismo, dependência e guerra — continuam caracterizando a ordem mundial.
A efeméride ocorre quando os Estados Unidos intensificam a ofensiva contra Cuba. Desde o retorno de Donald Trump à Presidência, em janeiro de 2025, Washington reforçou restrições econômicas, financeiras, energéticas e diplomáticas contra a ilha e ampliou a pressão sobre países, empresas e instituições estrangeiras que mantêm relações legítimas com a economia cubana. O bloqueio, aplicado há mais de seis décadas, procura fazer da privação material uma arma política contra a Revolução.
É nesse confronto entre memória, presente e futuro que o centenário adquire seu sentido mais profundo. Fidel não pertence apenas ao passado heroico de Cuba. Sua presença histórica se manifesta na decisão do povo cubano de defender a soberania conquistada em janeiro de 1959, nas políticas destinadas a preservar a saúde e a educação públicas, na cooperação internacional e na recusa a que o país regrida à condição de dependência. Cada vez que Cuba resiste e reafirma o direito de decidir o próprio destino, a obra de Fidel se torna ainda mais influente sobre o presente.
Comemorar os 100 anos de Fidel é compreender seu pensamento, a natureza e o sentido de suas realizações e identificar o método que lhe permitiu transformar uma rebeldia nacional em revolução socialista. Fidel foi um dirigente de Estado, mas sua dimensão histórica não cabe nos cargos que exerceu. Sua singularidade esteve na capacidade de interpretar o movimento da história, organizar forças sociais, converter consciência em ação e fazer de um pequeno país um sujeito independente e influente nas relações internacionais.
O centenário como batalha pela memória e pelo futuro
O centenário de Fidel traz suas ideias ao combate contemporâneo. Seu legado não pode ser separado do debate sobre o significado da Revolução Cubana, a legitimidade do socialismo e o direito de um povo resistir a uma potência que pretende determinar seu regime político, suas alianças e suas relações econômicas.
Fidel nasceu em 13 de agosto de 1926, em Birán, no leste de Cuba, e viveu a passagem de uma república submetida à tutela norte-americana para uma nação soberana. A extensão de sua trajetória — do enfrentamento à ditadura de Fulgencio Batista às batalhas políticas do século 21 — fez dele testemunha, protagonista e intérprete de mudanças decisivas no mundo: a descolonização da África e da Ásia, a constituição do campo socialista, o movimento dos Não Alionhados, a Guerra Fria, a derrota do apartheid, a crise do socialismo na URSS e no Leste europeu, a expansão neoliberal e o nascimento de novas formas de integração latino-americana.
Sob sua liderança, Cuba deixou de ser um país subordinado, com profundas desigualdades sociais, analfabetismo e serviços públicos precários, para soerguer um Estado que assumiu como deveres a educação, a saúde, a cultura, o esporte, a ciência e a proteção social. Essas conquistas demonstraram que a prioridade política dada às necessidades humanas pode alterar radicalmente a vida de milhões de pessoas.
Celebrar Fidel é reconhecer a dimensão coletiva de sua obra. A Revolução triunfou mercê da ação de combatentes, trabalhadores, camponeses, estudantes, mulheres, intelectuais, jovens, organizações populares e de vanguarda. A força de sua liderança consistiu precisamente em interpretar aspirações históricas, construir unidade e elevar o povo à condição de sujeito consciente do poder revolucionário. Fidel compreendeu, ouviu, sentiu e interpretou os clamores do seu povo e como um dínamo desatou suas energias, mobilizou-o e tornou-o potente na luta contra a opressão, a exploração e o domínio estrangeiro.
Da rebeldia à consciência revolucionária
A formação política de Fidel nasceu da realidade cubana: concentração da terra, pobreza rural, corrupção, violência ditatorial e domínio neocolonialista sobre setores estratégicos. Não foi produto de abstrações acadêmicas, embora o estudo tenha ocupado lugar permanente em sua vida. Sua consciência revolucionária amadureceu no confronto com uma ordem incapaz de assegurar dignidade à maioria e submetida aos interesses dos Estados Unidos.
Na obra de José Martí, Fidel encontrou a concepção de uma independência inseparável da justiça social, a defesa da unidade de Nossa América e a advertência contra o expansionismo norte-americano. No marxismo-leninismo, encontrou o referencial teórico e metodológico para analisar as classes, o Estado, o imperialismo e a necessidade da ruptura revolucionária para superar o capitalismo. A originalidade de seu pensamento esteve na fusão criadora dessas tradições: o patriotismo revolucionário martiano e a teoria do socialismo científico deixaram de ser correntes paralelas para se tornarem partes de um mesmo programa político de emancipação nacional e social.
O método de Fidel partia da análise concreta, das tradições nacionais, da correlação de forças e da participação popular. “Revolução é sentido do momento histórico” – pontuou. Este conceito, disse o Comandante Raúl Castro, é “a quintessência do trabalho político-ideológico”. A Revolução Cubana construiu um caminho próprio ao combinar luta guerrilheira, resistência urbana, mobilização operária e estudantil, programa nacional-popular, organização política e ação armada contra a ditadura.
O assalto ao Quartel Moncada, em 26 de julho de 1953, não obteve a vitória militar imediata, mas foi o ato inaugural da Revolução que viria a triunfar seis anos depois. No julgamento, Fidel converteu o banco dos réus em tribuna política e apresentou um programa que vinculava conquista da democracia, reforma agrária, direitos sociais, desenvolvimento e soberania. O libelo A história me absolverá deu sentido estratégico a uma derrota tática: revelou que uma ação revolucionária pode sobreviver ao revés quando expressa necessidades profundas da sociedade e se transforma em elevação da consciência política.
Vieram a prisão, a anistia, o exílio no México, a criação do Movimento 26 de Julho, a expedição do Granma, o reagrupamento na Sierra Maestra e a articulação com a luta clandestina nas cidades. A vitória de 1º de janeiro de 1959 foi o desfecho de um processo em que direção política, audácia militar e mobilização popular se tornaram inseparáveis. Cuba conquistou o direito de refundar a nação e instituir o poder do povo.
Um conceito de revolução fundado na ética
Um dos acréscimos mais importantes de Fidel ao pensamento revolucionário foi compreender a revolução como transformação permanente das estruturas, da consciência e da conduta. Não bastava conquistar o poder de Estado. Era necessário modificar as relações de propriedade, democratizar o acesso ao conhecimento, formar novos valores e impedir que privilégios e rotinas burocráticas minassem a obra coletiva.
Essa concepção combinava estratégia e ética. Para Fidel, o socialismo não poderia sustentar-se apenas pela eficiência econômica ou pela autoridade institucional. Precisava apoiar-se na participação consciente, no exemplo dos dirigentes, na solidariedade e na convicção de que ninguém deveria ser abandonado. A política era, nesse sentido, uma pedagogia pública: governar significava explicar, persuadir, prestar contas, mobilizar e aprender com a experiência popular.
Seus discursos eram parte desse método. Fidel estudava dados, ouvia especialistas, comparava experiências e procurava revelar as conexões entre economia, ciência, defesa, cultura e relações internacionais. Agricultura, energia, medicina, biotecnologia, história militar e meio ambiente pertenciam ao mesmo universo de preocupações porque todos incidiam sobre a independência do país e a vida concreta do povo.
Sua liderança também se distinguia por uma combinação incomum de firmeza estratégica e flexibilidade tática. Fidel podia rever métodos, corrigir decisões e adaptar políticas sem abandonar objetivos fundamentais. Essa capacidade explica por que a Revolução atravessou conjunturas tão distintas sem renunciar à soberania e ao socialismo. O princípio permanecia; a forma de defendê-lo devia responder às condições de cada tempo.
Ernesto Che Guevara identificou nele uma “força telúrica”. A definição exprime a energia política, a curiosidade intelectual, a coragem pessoal, a memória e a confiança no potencial humano que seus contemporâneos reconheciam. Essa confiança, porém, não era voluntarismo. Dependia de estudo, disciplina e organização. “A vida sem ideias de nada vale. Não há felicidade maior que a de lutar por elas”, afirmou Fidel, sintetizando uma existência em que pensamento e prática nunca estiveram separados.
A transformação social em Cuba
A medida histórica de uma revolução está na alteração das condições de vida e das relações de poder. Depois de 1959, a reforma agrária atingiu a grande propriedade, as nacionalizações recuperaram setores estratégicos e o Estado passou a orientar recursos para necessidades sociais antes subordinadas ao lucro e à dependência externa.
A Campanha Nacional de Alfabetização de 1961 condensou esse impulso. Jovens brigadistas, professores e trabalhadores atravessaram cidades, campos e montanhas para ensinar a ler e escrever. Em um único ano, centenas de milhares de pessoas foram alfabetizadas. A Unesco reconhece a campanha como um acontecimento decisivo da cultura e da educação latino-americanas e como referência para movimentos posteriores de educação popular.
Sua importância ultrapassou os indicadores. Alfabetizar significava incorporar milhões de cubanos à vida política, permitir acesso à ciência e à cultura e formar cidadãos capazes de compreender e transformar a sociedade. A educação gratuita, universal e articulada em todos os níveis converteu-se em um dos fundamentos da soberania. Um povo instruído estaria mais preparado para produzir, defender o país e participar das decisões coletivas.
Essa concepção projetou-se internacionalmente. A experiência cubana inspirou o método Yo, sí puedo, aplicado em dezenas de países e reconhecido pela Unesco. A alfabetização deixou de ser vista como favor ou assistência e passou a ser tratada como direito humano e instrumento de emancipação. Essa é uma das realizações mais duradouras associadas ao pensamento de Fidel: transformar conhecimento em patrimônio popular e solidariedade em política de Estado.
Na saúde, Cuba estruturou um sistema público de cobertura universal, baseado na atenção primária, na prevenção e na presença territorial. A formação de profissionais em massa, a rede de policlínicas, o acompanhamento comunitário e a integração entre assistência, ensino e pesquisa produziram resultados que deram à ilha projeção muito superior à sua capacidade econômica. O princípio orientador era inequívoco: a saúde não poderia ser mercadoria nem privilégio.
Fidel compreendeu cedo que independência exigia domínio científico. A Revolução investiu na formação de pesquisadores, criou instituições e impulsionou a biotecnologia e a indústria farmacêutica. Mesmo sob bloqueio, Cuba desenvolveu vacinas, medicamentos e capacidades próprias de pesquisa. A aposta na ciência não nasceu de uma busca abstrata por prestígio; respondia à necessidade de proteger a população em um país cujas importações, créditos e tecnologias eram permanentemente restringidos.
O esporte e a cultura integravam o mesmo projeto de emancipação. A criação de condições para que crianças e jovens tivessem acesso à prática esportiva, às artes e à formação cultural rompeu com uma sociedade em que esses direitos dependiam da renda. Para Fidel, uma revolução deveria ampliar todas as possibilidades humanas, não apenas assegurar a sobrevivência material.
O pensamento de Fidel sobre a saúde revela sua concepção integral de socialismo. Prevenir doenças, formar médicos e levar atendimento às zonas rurais eram tarefas simultaneamente sociais, econômicas e políticas. A qualidade de uma sociedade deveria ser medida pela proteção oferecida aos mais vulneráveis, e não pela acumulação de uma minoria.
Essa orientação tornou possível construir instituições científicas mesmo em períodos de severa escassez. A criação de um polo biotecnológico, a formação de especialistas e a vinculação entre laboratórios e o sistema público de saúde demonstraram a importância atribuída ao conhecimento como força produtiva soberana. O resultado mais significativo não está em um produto isolado, mas na existência de uma capacidade nacional de investigar problemas próprios e oferecer respostas públicas.
No plano internacional, a Escola Latino-Americana de Medicina materializou a ideia de formar profissionais para servir às comunidades mais necessitadas. Jovens de países pobres, muitos deles provenientes de regiões com escassez de assistência, puderam estudar medicina em Cuba com o compromisso ético de retornar a seus povos. O internacionalismo deixava, assim, de ser apenas solidariedade emergencial para converter-se em criação duradoura de capacidades humanas.
As brigadas médicas cubanas atuaram em desastres naturais, epidemias e regiões abandonadas por sistemas baseados no mercado. Em diferentes continentes, profissionais cubanos chegaram a lugares em que a rentabilidade não levaria hospitais nem médicos. Essa prática tornou concreta uma ideia central de Fidel: a humanidade pode organizar o conhecimento e a técnica segundo a necessidade, e não segundo a capacidade de pagamento.
Playa Girón e a defesa da soberania
A invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961, demonstrou que a Revolução teria de defender energicamente o direito recém-conquistado à independência. Em menos de três dias, as forças revolucionárias derrotaram a operação organizada e financiada pelos Estados Unidos. A vitória cubana de Playa Girón tornou-se a primeira grande derrota de uma invasão imperialista na América Latina e marcou a afirmação do caráter socialista da Revolução.
O episódio consolidou uma lição que atravessaria toda a liderança de Fidel: a paz de um país soberano não depende apenas de intenções, mas de capacidade de defesa, comando, unidade nacional e preparação popular. Cuba estava a poucos quilômetros da maior potência militar do planeta e seria submetida, nas décadas seguintes, a sabotagens, atentados, terrorismo, ações clandestinas, campanhas de desinformação e tentativas de assassinato de seus dirigentes.
Fidel nunca confundiu prudência com capitulação. Na Crise de Outubro de 1962, Cuba esteve no centro do momento mais perigoso da Guerra Fria. A experiência reforçou sua defesa da paz e do direito dos pequenos países a não serem tratados como peças negociáveis entre grandes potências. A soberania cubana não poderia ser protegida por acordos realizados sem a participação de Cuba.
Internacionalismo e libertação da África Austral
Entre as realizações mais extraordinárias associadas à liderança de Fidel está a solidariedade de Cuba com os povos africanos. Dezenas de milhares de cubanos participaram de missões militares e civis em apoio às lutas anticoloniais e em defesa de Estados ameaçados pelo apartheid e por intervenções externas.
Em Angola, a participação cubana foi decisiva para impedir o avanço das forças sul-africanas e alterar a correlação regional. A batalha de Cuito Cuanavale contribuiu para criar as condições políticas que levaram à independência da Namíbia e aceleraram a crise do regime de apartheid. Para os movimentos de libertação, Cuba demonstrou que o internacionalismo podia assumir riscos concretos e compartilhar sacrifícios.
A singularidade dessa presença está também no que Cuba não buscou. Não reivindicou territórios, minas, petróleo ou concessões comerciais. Seus combatentes regressaram levando a memória dos companheiros mortos e o reconhecimento dos povos que haviam recebido uma solidariedade sem contrapartida colonial. Nelson Mandela reconheceu a importância da contribuição cubana para a libertação da África Austral e manteve com Fidel uma relação de respeito e fraternidade.
O internacionalismo fidelista não se restringiu ao campo militar. Professores, técnicos, construtores e profissionais de saúde participaram da formação de novos Estados e do atendimento a populações marcadas por séculos de colonialismo. A mesma concepção orientaria, mais tarde, missões médicas contra epidemias e catástrofes. A Revolução compreendia a solidariedade como um dever, inclusive quando Cuba enfrentava carências próprias.
América Latina, integração e segunda independência
Fidel insere-se numa linhagem latino-americana formada por Toussaint Louverture, Simón Bolívar, José Martí, Augusto César Sandino, Farabundo Martí, Che Guevara, Salvador Allende, Hugo Chávez e outros combatentes da libertação nacional e social. Seu lugar é singular porque conduziu uma revolução vitoriosa e conseguiu fazê-la evoluir para o socialismo e defendê-la durante décadas sob hostilidade permanente dos Estados Unidos.
Ele compreendia a independência latino-americana como obra inconclusa. A ruptura formal com as antigas metrópoles não eliminara a dependência econômica, o controle estrangeiro dos recursos nem a fragmentação política. A “segunda independência” exigiria integração, soberania produtiva, justiça social e capacidade comum de enfrentar a pressão imperialista.
Com Hugo Chávez, Fidel impulsionou uma nova etapa desse projeto. A cooperação entre Cuba e Venezuela ampliou programas sociais e médicos e recuperou a perspectiva bolivariana da unidade continental. A Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América, a Celac e outras iniciativas expressaram uma integração fundada na complementaridade e na solidariedade.
Fidel sabia que unidade não significa uniformidade. Governos, partidos e movimentos com histórias distintas poderiam convergir na defesa da soberania, da paz e do desenvolvimento. Essa visão conserva plena validade em uma região ainda submetida à financeirização, ao poder das corporações transnacionais, à pressão diplomática e às tentativas de desestabilização política.
O dirigente que governava educando
Fidel foi um comunicador extraordinário porque tratava a palavra como parte da organização política. Seus discursos expunham questões complexas, desafios, apresentavam dados, recuperavam antecedentes históricos e convocavam a sociedade a assumir responsabilidades.
Essa pedagogia política recusava a ideia de um povo reduzido a espectador. Nas mobilizações, assembleias e grandes debates nacionais, Fidel procurava construir uma compreensão compartilhada dos objetivos, dos riscos e dos sacrifícios. Sua autoridade não se baseava apenas no cargo, mas na presença contínua diante do povo, na disposição de explicar decisões e na capacidade de formular um horizonte coletivo.
Esse traço ajuda a compreender a Batalha de Ideias, lançada no fim dos anos 1990. Fidel percebeu que a resistência não ocorria somente nos campos militar e econômico. O imperialismo disputava a memória, os valores, a linguagem e a própria imaginação do futuro. Se os povos fossem convencidos de que a História chegara ao fim e não existia alternativa ao capitalismo, a derrota política poderia anteceder qualquer ocupação territorial.
Por isso, cultura, educação, comunicação e formação ideológica tornaram-se dimensões estratégicas. Homenagear Fidel em seu centenário é também resgatar seu método: estudar a realidade, dialogar com o povo, combater a mentira, preservar a memória histórica e construir respostas adequadas a novas circunstâncias.
A liderança nas horas mais difíceis
A grandeza de Fidel tornou-se mais evidente nos períodos de provação. A Revolução foi obrigada a governar sob terrorismo, isolamento econômico, ameaça militar e bloqueio. Cada crise exigia preservar conquistas sociais sem dispor dos recursos de uma economia normal.
Nenhuma prova foi tão prolongada quanto o Período Especial, após a dissolução da União Soviética. No início da década de 1990, Cuba perdeu, em curto intervalo, grande parte de seus mercados, fontes de combustível e relações econômicas. O capitalismo declarou o “fim da história”, enquanto governos socialistas europeus ruíam e analistas previam que a ilha seria a próxima peça do dominó.
Fidel recusou a rendição. Cuba não abandonou o socialismo nem entregou a soberania em troca de uma reinserção subordinada. A economia sofreu uma queda brutal; faltaram combustível, alimentos, matérias-primas e equipamentos; apagões alteraram a rotina nacional. Ainda assim, serviços essenciais e conquistas sociais foram defendidos como prioridades.
No momento de maior derrotismo no movimento revolucionário mundial, Fidel foi assertivo ao expor a postura da Revolução cubana de resistência e de persistência no caminho socialista. Ele destacou que Cuba é símbolo da resistência, da defesa firme das ideias revolucionárias e do socialismo. Diante das adversidades, enfatizou que o Partido Comunista e o povo cubano sempre estariam à altura de sua responsabilidade histórica. A sobrevivência da Revolução confirmou sua confiança. Cuba atravessou a crise sem renunciar ao sistema político e social construído desde 1959.
Essa vitória não pode ser explicada apenas pela solidez das instituições. Dependeu da consciência política, da participação popular, da liderança capaz de interpretar a vontade coletiva e afrontar os intentos do imperialismo estadunidense de fazer o país retroceder aos tempos da subordinação e da dependência.
O recrudescimento do bloqueio
O bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos atravessa mais de seis décadas, mas voltou a recrudescer na última década. A reaproximação diplomática iniciada durante o governo de Barack Obama criou expectativas de normalização, embora as principais estruturas legais do cerco permanecessem intactas.
No primeiro mandato, entre 2017 e 2021, Donald Trump impôs centenas de medidas contra a ilha, restringiu viagens e remessas, proibiu cruzeiros, reduziu voos, ampliou listas de entidades sancionadas e dificultou operações bancárias internacionais. Em 2019, Washington ativou o Título III da Lei Helms-Burton, reforçando o caráter extraterritorial do bloqueio e elevando os riscos para empresas estrangeiras.
Em janeiro de 2021, Cuba foi recolocada na lista norte-americana de países que supostamente patrocinam o terrorismo. A medida multiplicou obstáculos bancários, encareceu transações e restringiu o acesso a fornecedores, créditos e investimentos. Joe Biden conservou durante todo o mandato grande parte das sanções herdadas. A retirada da ilha da lista, anunciada nos últimos dias de sua administração, foi revertida por Trump após retornar à Casa Branca.
A partir de 2025, o governo norte-americano restaurou e aprofundou a política de máxima pressão. Reforçou controles sobre viagens e transações, procurou isolar os programas cubanos de cooperação médica e ampliou ameaças contra parceiros externos. Em 2026, o cerco alcançou o abastecimento energético e passou a prever punições contra países e entidades envolvidos no fornecimento de petróleo e em setores estratégicos da economia cubana.
O objetivo permanece reconhecível: reduzir receitas, interromper pagamentos, afastar parceiros, limitar o acesso a combustíveis e converter as dificuldades cotidianas em instrumento de pressão política. Hospitais, transportes, sistemas de abastecimento de água, escolas e indústrias sofrem os efeitos de medidas apresentadas como punições ao governo, mas dirigidas materialmente contra toda a população.
O bloqueio também produz um efeito intimidatório superior ao texto das normas. Bancos, seguradoras, transportadoras e fornecedores de terceiros países evitam operações legítimas com Cuba por medo de perder acesso ao mercado ou ao sistema financeiro norte-americano. Essa coerção extraterritorial nega, na prática, a soberania de todos os Estados atingidos.
Apesar da pressão, a comunidade internacional continua majoritariamente contrária ao bloqueio. A repetição anual de votações na Assembleia Geral das Nações Unidas mostra o isolamento da política norte-americana. Defender o fim do bloqueio não significa ignorar dificuldades internas de Cuba, mas rechaçar que estas dificuldades sejam hipocritamente utilizadas como pretextos e instrumentos de ações intervencionistas e agressivas para derrubar o governo.
Fidel na continuidade da Revolução
O legado de Fidel manifesta-se nas decisões da atual direção cubana. Miguel Díaz-Canel, primeiro-secretário do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e presidente da República, representa a continuidade histórica adaptada às novas condições. Continuidade não é repetição automática: significa preservar soberania, socialismo, justiça social, unidade e internacionalismo enquanto se procuram respostas para desafios econômicos, tecnológicos, produtivos e demográficos do século 21.
A Constituição aprovada em 2019 reafirmou o caráter socialista do Estado e a irrevogabilidade do sistema socialista, ao mesmo tempo que reconheceu novas formas de propriedade e atualizou instituições. Essa combinação entre firmeza estratégica e flexibilidade tática corresponde ao método cultivado por Fidel.
Diante do cerco energético e financeiro e das ameaças de agressão militar, a liderança busca proteger serviços essenciais, atender populações vulneráveis, ampliar fontes renováveis, diversificar parceiros e fortalecer a produção nacional. A escala das dificuldades exige eficiência, participação comunitária e combate à burocracia. Exige também distinguir reforma necessária de restauração capitalista e abertura soberana de submissão externa.
Fidel está presente quando Cuba preserva a cooperação médica apesar de suas limitações, mantém uma política externa independente, condena o neocolonialismo e o imperialismo, defende o direito à independência dos povos ofendidos, oprimidos, ameaçados e agredidos pelo imperialismo, condena os genocídios e a guerra, defende a paz e o mundo multipolar. Está presente, sobretudo, na decisão de não negociar a independência conquistada.
Imperialismo no século 21
O centenário de Fidel transcorre quando a luta anti-imperialista recupera uma atualidade incontornável. O imperialismo não desapareceu com o fim da Guerra Fria; reorganizou seus instrumentos. À ocupação militar direta somaram-se sanções unilaterais, controle financeiro, monopolização tecnológica, apropriação de dados, bloqueios comerciais, guerra informacional e ameaça de exclusão dos sistemas internacionais de pagamento.
Cuba é um laboratório histórico dessa coerção. Métodos aplicados por décadas contra a ilha passaram a atingir numerosos países. As medidas unilaterais procuram sufocar economias, provocar instabilidade e impor mudanças políticas sem autorização das Nações Unidas.
Defender Cuba, portanto, não é uma questão restrita à solidariedade com uma pequena nação caribenha. É defender o princípio de que nenhum povo pode ser submetido à privação por se recusar a obedecer a uma potência estrangeira. É afirmar que soberania não pode ser privilégio dos Estados militar e financeiramente mais fortes.
Fidel compreendeu que a independência formal seria insuficiente enquanto território, recursos, comércio, finanças e decisões estratégicas permanecessem sob controle externo. Essa lição vale para países ricos em petróleo, minerais, água, biodiversidade e terras agrícolas, pressionados a entregar suas riquezas às corporações transnacionais.
A luta anti-imperialista tornou-se inseparável do combate ao fascismo, ao militarismo e ao belicismo dos Estados Unidos. O pensamento de Fidel oferece uma chave para relacionar essas dimensões e identificar seu fundamento comum.
O Sul Global e a multipolaridade
O mundo do centenário de Fidel é diferente daquele que emergiu após a dissolução da União Soviética. A hegemonia absoluta dos Estados Unidos declina, enquanto novos centros econômicos e políticos se consolidam. Países da Ásia, África, América Latina e Oriente Médio reivindicam maior participação na definição das regras internacionais. O socialismo, com as peculiaridades da época e as características nacionais dos países socialistas, mostra pujança e perspectiva.
A ampliação de mecanismos de cooperação como o Brics expressa essa transformação. Seus integrantes possuem sistemas sociais e interesses distintos, mas a articulação revela uma recusa crescente à ordem controlada por poucas potências ocidentais. Novas instituições financeiras, acordos em moedas nacionais e parcerias Sul-Sul podem ampliar as margens de soberania dos países em desenvolvimento.
A multipolaridade, por si só, não garante paz ou justiça social. Um mundo com vários centros de poder ainda pode reproduzir desigualdades e rivalidades. Mas o enfraquecimento do monopólio de poder pelos Estados Unidos abre espaço para alianças, alternativas financeiras e projetos de desenvolvimento menos subordinados.
Cuba participa desse processo com a autoridade de quem defendeu a autodeterminação durante mais de seis décadas. Sua diplomacia apoia a integração regional, a reforma das instituições multilaterais e a igualdade jurídica entre os Estados. A emergência do Sul Global confirma uma opinião de Fidel: povos colonizados e subordinados não estão condenados a permanecer na periferia da história quando constroem unidade e capacidade de ação.
Socialismo ou barbárie
O centenário de Fidel recoloca o socialismo no debate sobre o futuro. A concentração extrema da riqueza, a precarização do trabalho, a fome, as guerras e a crise ambiental demonstram que o capitalismo não solucionou as grandes contradições da humanidade. Em muitos casos, ampliou-as a níveis que ameaçam a própria civilização.
A tecnologia contemporânea permite produzir alimentos, medicamentos, moradias e bens suficientes para assegurar uma existência digna. Milhões de pessoas, entretanto, permanecem privadas do essencial porque a produção está subordinada ao lucro. O problema fundamental não é a ausência de recursos, mas o poder que determina sua apropriação e sua distribuição.
Fidel concebia o socialismo como possibilidade de colocar economia, ciência e Estado a serviço do ser humano. A experiência cubana, cercada e marcada por limitações, provou que um país de recursos escassos pode universalizar a alfabetização, formar médicos, construir ciência e assegurar direitos quando reorganiza suas prioridades.
As dificuldades atuais não anulam essas conquistas. Exigem análise rigorosa, correção de insuficiências, superação de práticas burocráticas e mobilização produtiva. Exigem também que qualquer avaliação honesta considere o peso do bloqueio sobre créditos, importações, tecnologia, transações e parceiros comerciais.
Defender o socialismo não é negar problemas nem idealizar sacrifícios. É enfrentá-los sem aceitar que a solução seja desmontar direitos, privatizar recursos estratégicos ou devolver Cuba à condição de território subordinado. A exigência ética de Fidel incompatibilizava o socialismo com privilégios, indiferença e corrupção. Sua continuidade depende da participação consciente do povo e da superioridade moral de um projeto fundado na igualdade.
Aos 100 anos, uma presença perene
Ao completar-se o centenário de seu nascimento, Fidel pertence definitivamente à história, mas não a uma história encerrada. Vive na criança atendida por um sistema público de saúde, no estudante que chega gratuitamente à universidade, no cientista que pesquisa soluções para seu país e no médico que cruza oceanos para enfrentar uma epidemia.
Vive nas nações africanas que conquistaram a liberdade e a independência, nos povos latino-americanos que enfrentam o neocolonialismo, nos movimentos dos trabalhadores que desafiam a exploração. Vive nas novas gerações que voltam a discutir o socialismo não como nostalgia, mas como resposta à desigualdade, à guerra e ao colapso ambiental.
Vive, sobretudo, na recusa de Cuba a ajoelhar-se diante do império. Cada nova sanção pretende demonstrar a força de Washington, mas revela também sua incapacidade de aceitar uma nação soberana e socialista a poucos quilômetros de suas costas. Se a Revolução fosse um episódio esgotado, não seria necessário mobilizar tamanho aparato econômico, diplomático, financeiro e militar para combatê-la.
O centenário de Fidel é, por isso, celebração e compromisso. Celebra o Comandante invicto, o homem que fez da independência uma prática, da solidariedade um princípio de Estado, da educação uma forma de poder popular e do socialismo uma escolha ética. Reafirma o compromisso com a batalha das ideias, a unidade de Nossa América, a emergência do Sul Global e a construção de uma ordem internacional fundada na soberania
Fidel foi absolvido pela história porque colocou a própria vida ao lado dos humildes, dos explorados e dos povos que se recusam a ser colônias. Seu legado maior não consiste apenas em ter ensinado Cuba a resistir. Consiste em ter demonstrado que um povo consciente, organizado e senhor de seu destino pode transformar a realidade e enfrentar forças que pareciam invencíveis.
Diante do bloqueio recrudescido, Cuba voltará a mobilizar sua inteligência, sua solidariedade e suas reservas morais. Não será uma caminhada sem perdas, contradições ou dificuldades. Será a continuação de uma epopeia iniciada antes de 1959, alimentada por gerações de patriotas e revolucionários e projetada para além da vida de seu principal dirigente.
Aos 100 anos de seu nascimento, Fidel permanece onde escolheu estar: na primeira linha da luta pela dignidade, pela independência, pela revolução e pelo socialismo. Seu centenário não fecha um ciclo. Convoca uma nova geração a compreender que a história só absolve aqueles que lutam para transformá-la.
(*) Jornalista, editor internacional, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil e presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz)