GEOPOLÍTICA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Turnê de Rubio amplia cerco dos EUA sobre a América do Sul

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Passagem por Colômbia, Equador e Peru combina acordos comerciais, acordos militares, consolidação do Escudo das Américas e busca por contenção da China

Por José Reinaldo Carvalho (*) – O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, realizou nesta semana um giro por três países da América do Sul: Colômbia, Equador e Peru. A viagem combinou acordos comerciais, operações militares com o pretexto de combater o narcotráfico, expansão do chamado Escudo das Américas e uma ofensiva para conter a presença da China em setores estratégicos da região.

Segundo o Departamento de Estado dos EUA, Rubio pretende fortalecer alianças consideradas prioritárias por Washington, aprofundar a cooperação contra o chamado “narcoterrorismo” e ampliar as relações comerciais com os três países,por isso mesmo o secretário se deslocou a países sob governos de extrema direita e alinhados com a atual administração estadunidense liderada por Donald Trump.

Embora o combate ao narcotráfico seja apresentado como eixo central da agenda, a viagem tem alcance mais amplo. Washington procura consolidar uma faixa de governos subordinados à sua estratégia hemisférica, assegurar acesso privilegiado a petróleo, minerais críticos, portos e infraestrutura logística e reduzir o espaço econômico conquistado pela China nas últimas duas décadas.

Rubio resumiu o caráter ideológico da missão antes de embarcar. “Vamos visitar três países estreitamente alinhados com os Estados Unidos”, afirmou. Ele também declarou esperar “fechar acordos comerciais sólidos e benéficos com os três países em um futuro próximo”.

A escolha de Colômbia, Equador e Peru não é casual. Os três países ocupam posições estratégicas na costa do Pacífico, possuem recursos naturais cobiçados e oferecem acesso a rotas marítimas, corredores comerciais e áreas próximas à Amazônia. Seus atuais governos também integram, em diferentes graus, o campo direitista que Trump pretende transformar em base política regional.

Colômbia como plataforma militar, energética e mineral

A primeira escala de Rubio ocorreu em 8 de setembro, na Colômbia, onde ele se reuniu, em Barranquilla, com o recém-empossado presidente Abelardo de la Espriella. A pauta incluiu combate ao narcotráfico, cooperação militar, energia, comércio e reconstrução das áreas atingidas pelo terremoto de agosto.
Os dois governos alinharam estratégias mais rigorosas contra cartéis e organizações classificadas como narcoterroristas. A Colômbia também formalizou sua entrada no Escudo das Américas, coalizão regional promovida pelos Estados Unidos para ampliar o compartilhamento de inteligência, a cooperação judicial e a coordenação de ações de segurança.

O encontro ocorreu depois que o governo colombiano autorizou operações conjuntas com forças norte-americanas em território nacional. O comandante do Comando Sul dos EUA, Francis Donovan, já havia visitado o país para discutir a ampliação da cooperação militar.
De la Espriella manifestou interesse em obter equipamentos e treinamento dos Estados Unidos, incluindo aviões, radares e drones, mas negou que o acordo envolva a instalação de tropas norte-americanas no país. O governo dos EUA pretende utilizar a Colômbia como ponto de apoio para ações de vigilância no Pacífico, operações nas fronteiras e intercâmbio de informações na área de segurança.

Rubio e o chanceler colombiano também assinaram instrumentos de cooperação sobre energia nuclear para fins civis e cadeias de suprimentos de minerais críticos. Bogotá procura ainda obter dos Estados Unidos medidas de facilitação tarifária para reduzir os efeitos do desastre natural sobre sua economia.
Os acordos colocam setores estratégicos colombianos no centro da disputa entre Washington e Pequim. A cooperação nuclear civil abre espaço para a entrada de tecnologia e empresas norte-americanas, enquanto o entendimento sobre minerais críticos busca aproximar a produção colombiana das cadeias industriais controladas pelos Estados Unidos.

A Colômbia é historicamente o principal parceiro militar norte-americano na América do Sul. O novo ciclo de cooperação, entretanto, amplia o risco de que o combate ao narcotráfico volte a servir como justificativa para ingerência política, operações externas e militarização de conflitos internos.

O modelo remete ao Plano Colômbia, lançado no fim dos anos 1990. Embora apresentado como programa antidrogas, o projeto fortaleceu a presença militar dos Estados Unidos, direcionou bilhões de dólares à compra de armamentos e associou a política de segurança colombiana aos interesses estratégicos de Washington.

Equador amplia operações navais com os Estados Unidos

Em 9 de setembro, Rubio se reuniu com o presidente Daniel Noboa, em Quito. Segurança, comércio, extradição, migração e atuação conjunta contra organizações criminosas dominaram a agenda.

O combate ao crime transnacional foi o principal eixo da reunião. Os dois governos discutiram o reforço das operações navais conjuntas no Oceano Pacífico, com participação de forças norte-americanas e equatorianas na interceptação de embarcações associadas ao tráfico de drogas.

As ações integram uma nova estratégia dos Estados Unidos para atuar ao lado de governos aliados e adaptar as operações às legislações nacionais. Apesar disso, Rubio declarou que Washington continuará recorrendo à destruição de embarcações quando considerar necessário.

Os Estados Unidos também mantêm equipes especializadas trabalhando com forças equatorianas e procuram obter do Congresso norte-americano mais verbas para ampliar as ações militares no combate ao narcotráfico. A estrutura contempla equipamentos, treinamento, vigilância, inteligência e apoio a operações no Pacífico e em outras áreas.

Rubio anunciou ainda a classificação da facção Los Tiguerones como “organização terrorista estrangeira e terrorista global especialmente designada”. A medida amplia as possibilidades de bloqueio de ativos, sanções financeiras e ações de segurança contra integrantes ou apoiadores do grupo.

A decisão segue o padrão adotado anteriormente contra Los Lobos e Los Choneros. Ao converter quadrilhas em organizações terroristas, Washington passa a aplicar instrumentos originalmente desenvolvidos para conflitos internacionais a problemas de segurança pública latino-americanos.

Essa mudança não é apenas jurídica. Ela abre caminho para operações militares, ações clandestinas e uso de força letal sob comando ou influência dos Estados Unidos. Ao aceitar essa arquitetura, o governo equatoriano transfere parte de sua capacidade de decisão soberana a uma potência estrangeira.
Noboa e Rubio também discutiram o controle dos fluxos migratórios irregulares e a situação das fronteiras regionais. O governo Trump procura vincular os acordos de segurança à política norte-americana de contenção migratória, atribuindo aos países latino-americanos responsabilidades crescentes na interceptação e deportação de migrantes.

Na frente jurídica, os dois governos avaliaram a modernização do tratado bilateral de extradição e o aprofundamento da coordenação entre forças policiais, militares e serviços de inteligência. O objetivo declarado é facilitar o envio aos Estados Unidos de chefes de organizações criminosas que atuam no Equador.
A agenda econômica incluiu demandas comerciais pendentes apresentadas por Quito, possibilidades de investimentos norte-americanos e a revisão de barreiras tarifárias. Os dois países também avaliaram parcerias nos setores de tecnologia, infraestrutura digital e cadeias produtivas.

Em setembro de 2025, durante outra visita de Rubio, Washington já havia anunciado recursos para equipamentos de segurança e tecnologia de drones. A atual viagem consolida o Equador como um dos principais pontos de apoio dos Estados Unidos no litoral sul-americano do Pacífico.

Peru: minerais críticos e disputa pelo porto de Chancay

A passagem de Marco Rubio pelo Peru reuniu de forma mais evidente os objetivos comerciais, geopolíticos e antichineses da turnê sul-americana. O secretário de Estado dos Estados Unidos chegou a Lima em 9 de setembro e, no dia seguinte, reuniu-se com a presidente Keiko Fujimori, empossada poucas semanas antes. Durante a visita, Rubio também participou de um encontro na Câmara de Comércio Americana do Peru.

A adesão do Peru ao Escudo das Américas ocupou o centro das conversas. Após o encontro no Palácio do Governo, Fujimori confirmou a entrada do país na coalizão liderada por Washington para ampliar a cooperação militar, policial, judicial e de inteligência contra o crime organizado e o chamado narcoterrorismo. A incorporação também foi confirmada por Rubio.

A decisão acrescentou uma estrutura regional de segurança à relação bilateral. Ao anunciar a adesão, Rubio classificou o Peru como um importante aliado dos Estados Unidos fora da Organização do Tratado do Atlântico Norte, “aliado extra-Otan”, condição associada à ampliação da cooperação militar, ao acesso a equipamentos e à participação em programas de defesa norte-americanos.

Rubio integrou o Peru à estratégia militar do Hemisfério Ocidental elaborada pelo governo de Donald Trump. A iniciativa prevê compartilhamento de informações, treinamento, combate a redes criminosas transnacionais e coordenação de políticas de segurança. Fujimori afirmou que a participação permitirá ao país obter dados com maior rapidez e agir diretamente contra organizações criminosas que operam além das fronteiras.

A agenda da viagem também envolveu investimentos, comércio e setores estratégicos. Em fevereiro de 2026, Peru e Estados Unidos assinaram um memorando sobre minerais críticos.

A ofensiva de Washington para assegurar cadeias de abastecimento na América do Sul está inserida na disputa tecnológica e industrial com Pequim.
O Peru também abriga o porto de Chancay, construído com capital chinês e controlado pela estatal Cosco Shipping. Localizado ao norte de Lima, o terminal de águas profundas encurta o tempo de transporte entre a América do Sul e a Ásia e fortalece a possibilidade de o país se consolidar como centro logístico do comércio transpacífico.

Em fevereiro, o governo norte-americano acusou empresas chinesas de ameaçar a soberania peruana sobre Chancay. A manifestação expôs a disputa entre Washington e Pequim pela influência sobre infraestrutura, minerais e decisões estratégicas no Peru. Durante a viagem, Rubio voltou a criticar os investimentos chineses e apresentou o capital norte-americano como uma alternativa para o país.

Fujimori busca aprofundar os vínculos políticos e de segurança com Washington sem romper as relações comerciais com a China, um dos principais parceiros econômicos do Peru. Após o encontro com Rubio, a presidente afirmou que o país continuará aberto ao comércio com outras regiões, em meio à pressão do governo Trump para limitar a presença chinesa em áreas como infraestrutura, telecomunicações, mineração e logística.

Escudo das Américas institucionaliza bloco de direita

O Escudo das Américas foi lançado por Trump em março de 2026, durante uma reunião com presidentes latino-americanos na Flórida. Oficialmente, a iniciativa pretende combater cartéis, imigração irregular e organizações criminosas transnacionais.

A adesão da Colômbia e o anúncio da entrada do Peru ampliam a presença do mecanismo na América do Sul. O Brasil e o México permanecem fora da iniciativa, enquanto governos de direita aproximam suas estruturas de segurança dos Estados Unidos.

Na prática, o mecanismo procura organizar uma coalizão política, militar e ideológica liderada por Washington. O grupo oferece aos Estados Unidos novos canais para compartilhar inteligência, promover operações militares e condicionar políticas comerciais e diplomáticas.

A formação desse eixo constitui uma tentativa de desenvolver alianças reacionárias na América Latina. O critério de aproximação não se limita à disposição de enfrentar o crime organizado: envolve adesão ao programa de Trump, hostilidade aos governos de esquerda, abertura a empresas norte-americanas e afastamento progressivo da China.

O combate ao narcotráfico oferece uma narrativa conveniente porque transforma problemas sociais complexos em ameaças militares. Com isso, pobreza, desigualdade e polarização política deixam de ocupar o centro do debate, enquanto se legitimam operações especiais, vigilância estrangeira e expansão das Forças Armadas em alinhamento com os EUA.

Uma extensa ofensiva diplomática sobre a região

A viagem aos três países andinos faz parte de uma movimentação iniciada logo após Rubio assumir o Departamento de Estado. Em sua primeira missão internacional, em fevereiro de 2025, ele percorreu Panamá, El Salvador, Costa Rica, Guatemala e República Dominicana.

No mês seguinte, visitou Jamaica, Guiana e Suriname. Em setembro daquele ano, esteve no México e no Equador. Somadas às atuais escalas em Colômbia e Peru, essas viagens mostram que Rubio passou por pelo menos 12 países da América Latina e do Caribe como secretário de Estado.

As pautas se repetem: migração, narcotráfico, minerais críticos, energia, portos, telecomunicações e pressão contra empresas chinesas. No Panamá, Washington atacou a presença de companhias chinesas nas proximidades do canal. Na Costa Rica, pressionou contra fornecedores chineses de tecnologia 5G. Na Guiana, ampliou a cooperação militar em uma área rica em petróleo e disputada pela Venezuela.

Essa sequência demonstra que está em curso uma ofensiva destinada a reconstruir uma esfera de influência norte-americana no hemisfério, agora sob linguagem mais agressiva, comercialmente coercitiva e militarizada.

Estratégia de segurança recupera lógica da Doutrina Monroe

O fundamento político da ofensiva aparece na Estratégia de Segurança Nacional publicada pela Casa Branca em dezembro de 2025. O documento colocou o Hemisfério Ocidental entre as prioridades do governo Trump e defendeu a recuperação da “preeminência” dos Estados Unidos na região.

A estratégia criou o chamado “Corolário Trump” à Doutrina Monroe. Entre seus objetivos está impedir que concorrentes de fora do hemisfério controlem ativos estratégicos, infraestrutura, portos ou capacidades consideradas ameaçadoras por Washington.

Na linguagem da Casa Branca, o principal concorrente é a China. Pequim tornou-se o maior parceiro comercial de países como Brasil, Chile e Peru, financiou obras de infraestrutura e ampliou sua participação nos mercados de energia, mineração, agricultura e tecnologia.

O problema para Washington não é uma suposta defesa abstrata da soberania latino-americana, mas a perda de sua antiga exclusividade sobre a região. A doutrina norte-americana reivindica, na prática, o poder de determinar quais países podem investir, financiar projetos ou manter relações estratégicas com as nações do continente.

Esta visão é imperialista e neocolonialista porque trata a América Latina como território subordinado aos interesses econômicos e militares dos Estados Unidos. É hegemonista porque não reconhece aos países latino-americanos o direito de diversificar suas parcerias e construir uma política externa autônoma.

O Brasil está diretamente ameaçado

Para o Brasil, o avanço dessa estratégia representa um perigo concreto. O país não participou do lançamento do Escudo das Américas e mantém uma política externa baseada na defesa da soberania, na integração sul-americana, no Brics, na defesa do multilateralismo e em uma relação econômica profunda com a China.

A China é o maior parceiro comercial brasileiro e um mercado decisivo para produtos como soja, minério de ferro, petróleo e carnes. Empresas chinesas também investem em energia elétrica, infraestrutura, indústria, telecomunicações e tecnologia. Por isso, qualquer tentativa de Washington de obrigar os países da região a escolher entre Estados Unidos e China atingirá diretamente os interesses nacionais brasileiros.

Há ainda uma dimensão militar. Colômbia, Peru e Equador cercam áreas próximas à Amazônia e podem integrar uma rede de inteligência, vigilância aérea, monitoramento por satélite e operações especiais liderada pelos Estados Unidos. A expansão dessa estrutura aproximaria capacidades militares estrangeiras das fronteiras brasileiras e de uma das regiões mais estratégicas do planeta.

A Amazônia reúne água, biodiversidade, minerais, petróleo e terras raras, além de ocupar posição central no debate climático. Uma arquitetura de segurança regional definida em Washington pode converter o combate ao narcotráfico, a proteção ambiental ou a defesa de minerais críticos em justificativas para pressionar o Brasil sobre o uso de seu próprio território.

Também existe o risco de isolamento diplomático. Ao construir um cinturão de governos de direita e subservientes a Trump, os Estados Unidos procuram enfraquecer organismos de integração autônoma, limitar a influência brasileira e dividir a América do Sul em blocos ideológicos.

A turnê de Marco Rubio, portanto, deve ser compreendida como parte de uma disputa maior pelo comando político e econômico do continente. Sob o discurso de segurança, comércio e combate ao crime, Washington articula governos aliados, incorpora forças locais à sua estratégia militar e tenta bloquear a presença chinesa.

Para o Brasil, responder a esse movimento exige preservar a soberania e fortalecer a integração regional. O risco central não está apenas em uma visita diplomática, mas na consolidação de uma ordem hemisférica em que decisões sobre segurança, recursos naturais e relações comerciais voltem a ser condicionadas pelos interesses dos Estados Unidos.

(*) Jornalista, editor internacional, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil e presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz)

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