GEOPOLÍTICA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Modernização chinesa e futuro compartilhado: soberania, desenvolvimento e multipolaridade

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Falar da modernização chinesa é abordar uma das transformações estruturais mais significativas do século XXI, escreve o dirigente comunista José Reinaldo Carvalho

Por José Reinaldo Carvalho (*) – Este artigo é o resumo de uma palestra que apresentei por videoconferência em um fórum organizado pelo Instituto para o Estudo do Pensamento Chinês da Espanha, no qual se discutiu a modernização da China e sua relação com a construção de um futuro compartilhado para a humanidade. A intervenção buscou analisar a experiência chinesa como fenômeno histórico e político de grande impacto mundial, especialmente para os países do Sul Global.

Falar da modernização chinesa é abordar uma das transformações estruturais mais significativas do século XXI. Trata-se de um processo histórico em que a China, após séculos de invasões, humilhações coloniais, pobreza extrema e subordinação internacional, redefine seu caminho de desenvolvimento a partir de bases próprias, combinando planejamento estatal, soberania nacional e centralidade do povo.

Ao contrário de uma narrativa difundida por décadas, segundo a qual modernizar-se significaria necessariamente ocidentalizar-se, a experiência chinesa demonstra que há múltiplos caminhos possíveis para o desenvolvimento. Essa ideia desafia diretamente o receituário neoliberal que marcou parte importante da globalização recente, baseado na desregulação, privatização e dependência externa.

A modernização chinesa não se limita ao crescimento econômico ou ao avanço tecnológico. Ela se estrutura como um projeto histórico de construção socialista adaptado às condições concretas de um país continental, com profundas desigualdades regionais e uma população superior a 1,4 bilhão de pessoas. Seu princípio orientador é a centralidade do povo, o que confere ao modelo uma dimensão que ultrapassa fronteiras nacionais.

Um dos eixos fundamentais desse processo é a prosperidade comum, conceito que expressa uma alternativa ao padrão de concentração de riqueza típico do capitalismo neoliberal. Enquanto este tende a ampliar desigualdades, o modelo chinês busca orientar o desenvolvimento para a melhoria das condições de vida da maioria da população, com avanços em educação, saúde, moradia, infraestrutura e proteção social.

Outro marco relevante é a erradicação da pobreza extrema, resultado de políticas públicas coordenadas, planejamento estatal e mobilização de recursos em larga escala. Esse resultado reforça a ideia de que a pobreza não é um destino inevitável, mas um problema estrutural que pode ser enfrentado por meio de ação política consistente e estratégica.

A dimensão ecológica também ocupa papel central na estratégia chinesa de modernização. O país tem investido fortemente na transição energética, na expansão de fontes renováveis e na redução progressiva de emissões, estabelecendo metas de pico de carbono antes de 2030 e neutralidade até 2060. Essa abordagem integra desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental, evitando a dicotomia entre crescimento e sustentabilidade.

No plano internacional, a modernização chinesa se articula ao princípio do desenvolvimento pacífico. Ao contrário de experiências históricas de potências que associaram crescimento à expansão militar e colonial, a China defende uma trajetória baseada na cooperação e no não intervencionismo, o que tem implicações diretas para a ordem global contemporânea.

Esse conjunto de elementos se conecta à formulação da comunidade de futuro compartilhado para a humanidade. Trata-se de uma visão segundo a qual os grandes desafios globais — como mudanças climáticas, crises financeiras, pandemias e desigualdades estruturais — não podem ser resolvidos por um único país ou bloco, exigindo coordenação e cooperação internacional.

A proposta chinesa nesse campo se desdobra em quatro iniciativas principais: desenvolvimento global, segurança global, civilização global e governança global. Em conjunto, essas agendas buscam redefinir a governança internacional com base no multilateralismo, na soberania dos Estados e no respeito à diversidade de modelos de desenvolvimento.

A Iniciativa de Desenvolvimento Global prioriza o combate à pobreza, a industrialização e a cooperação tecnológica. Já a Iniciativa de Segurança Global defende que a segurança de um país não deve se construir à custa da insegurança de outro, rejeitando lógicas de confronto e blocos militares. Por sua vez, a Iniciativa de Civilização Global propõe o respeito às diferenças culturais e rejeita hierarquias civilizatórias historicamente usadas para justificar intervenções e dominação. A iniciativa se apoia em cinco princípios centrais: igualdade soberana, Estado de Direito internacional, multilateralismo, abordagem centrada nas pessoas e resultados concretos. Segundo o editorial, esses pontos rejeitam a chamada “lei da selva”, na qual a força se sobrepõe ao direito, e procuram superar a lógica de “centro e periferia” presente em teorias tradicionais das relações internacionais.

Instrumentos como a Nova Rota da Seda e o fortalecimento de mecanismos como os BRICS reforçam essa estratégia ao ampliar a integração econômica e financeira entre países do Sul Global, buscando reduzir assimetrias históricas no sistema internacional.

Na América Latina, esse debate ganha relevância particular, dado o histórico regional de dependência externa, crises de endividamento, intervenções políticas e vulnerabilidade econômica. Nesse contexto, a experiência chinesa é frequentemente observada como referência de um modelo alternativo de desenvolvimento baseado em autonomia estratégica e fortalecimento do Estado.

É importante destacar que a modernização chinesa não se apresenta como modelo universal a ser copiado. Trata-se de uma experiência histórica específica, que não pode ser transplantada mecanicamente para outras realidades. Ainda assim, ela oferece elementos relevantes para a reflexão sobre caminhos possíveis de desenvolvimento fora das estruturas tradicionais do neoliberalismo global.

O principal ponto de inflexão trazido por essa experiência é a demonstração de que não existe um único destino histórico para as nações. O desenvolvimento pode assumir formas diversas, articulando planejamento, soberania, justiça social e inserção internacional ativa, sem subordinação automática a centros hegemônicos de poder.

Nesse sentido, a modernização chinesa recoloca no centro do debate internacional a disputa sobre os rumos do século XXI. De um lado, permanece a lógica da competição geopolítica, da desigualdade estrutural e da concentração de poder. De outro, emerge a possibilidade de um mundo baseado na cooperação, na multipolaridade e no desenvolvimento compartilhado.

A noção de comunidade de futuro compartilhado sintetiza essa segunda perspectiva ao propor uma ordem internacional em que o destino das nações esteja interligado por relações mais equilibradas e cooperativas, e não por hierarquias rígidas ou dependências estruturais.

O debate sobre a modernização chinesa ultrapassa a análise de um caso nacional específico. Ele se insere em uma discussão mais ampla sobre os caminhos do desenvolvimento global e sobre as alternativas ao modelo hegemônico que marcou as últimas décadas.

A experiência chinesa, independentemente de interpretações políticas, evidencia que o século XXI está aberto a diferentes possibilidades históricas. Entre elas, a construção de um sistema internacional mais plural, menos assimétrico e mais orientado à cooperação entre os povos permanece como uma das questões centrais do nosso tempo.

(*) Jornalista, editor internacional, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do PCdoB e presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz)

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