GEOPOLÍTICA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Cuba responde ao bloqueio com soberania e criatividade

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Cuba combina resistência, soberania e reformas econômicas para enfrentar os efeitos do bloqueio dos EUA e manter vigente o socialismo, escreve o dirigente comunista José Reinaldo Carvalho

Por José Reinaldo Carvalho (*) – O momento é decisivo na trajetória da Revolução Cubana. O governo revolucionário combina resistência heroica, soberania e criatividade, componentes essenciais da decisão lúcida de promover adaptações, atualizar o modelo econômico e realizar reformas com plena autonomia política e consciência socialista para enfrentar os efeitos do bloqueio imposto pelos Estados Unidos. Há, por óbvio, uma necessidade premente e emergencial de encontrar soluções adequadas para os angustiantes problemas provocados pela política genocida do imperialismo, urgência que não pode ser ignorada sob pretexto algum.

A complexa experiência da luta anti-imperialista já ensinou às forças progressistas, provadas no exercício do internacionalismo, que os povos aos quais se dirigem ações solidárias são plenamente autônomos para definir sua própria caminhada. A solidariedade verdadeira não substitui a soberania dos povos nem pretende ditar fórmulas externas. Ao contrário, parte do reconhecimento de que cada revolução se desenvolve em condições históricas concretas, sob correlações de forças específicas, enfrentando inimigos reais e contradições próprias. No caso cubano, essa compreensão é decisiva: o objetivo socialista da Revolução permanece mantido, mas sua construção não pode ser concebida como ato súbito, resultado de decreto ou aplicação mecânica de esquemas abstratos.

Para além do sentido emergencial, as medidas anunciadas pelo governo revolucionário cubano resultam de uma elevada compreensão teórica e política, que envolve estratégia e tática, conhecimento da realidade nacional e mundial, percepção aguda do momento histórico, domínio das leis gerais do desenvolvimento social, compreensão da natureza da luta de classes, identificação do caráter dos inimigos a enfrentar, atenção às leis objetivas da evolução histórica, às peculiaridades nacionais e às tendências de longo prazo. O marxismo permanece como teoria guia, precisamente porque oferece instrumentos para interpretar a realidade e transformá-la, e não porque forneça receitas prontas ou modelos rígidos. A teoria revolucionária que sistematiza leis universais do desenvolvimento histórico não constitui um amontoado de dogmas. Sua força reside na capacidade de orientar a ação concreta, reconhecer fluxos e refluxos, avanços e recuos, adaptar formas de luta e de organização, e manter firme o horizonte socialista sem perder contato com as exigências vivas da realidade.

A posição apresentada pelo presidente Miguel Díaz-Canel, também primeiro-secretário do Partido Comunista de Cuba, na Terceira Sessão Extraordinária da Assembleia Nacional do Poder Popular, em sua 10ª Legislatura, recoloca no centro do debate uma verdade essencial sobre a Revolução Cubana: resistir não significa permanecer imóvel. Ao contrário, a resistência heroica de Cuba diante do bloqueio imperialista exige hoje audácia, criatividade e capacidade de renovar caminhos sem renunciar aos princípios que sustentam sua soberania, sua essência e seus objetivos históricos.

Como ensinava Fidel Castro, revolução é o sentido do momento histórico. Essa definição continua atual porque impede que o pensamento revolucionário seja confundido com dogmatismo. Dirigir uma revolução sitiada por pressões externas, dificuldades econômicas e insuficiências internas requer coragem para corrigir rumos, abrir alternativas e preservar o essencial: a independência política do país, o direito de seu povo decidir o próprio destino e a persistência nos objetivos da revolução.

Ao afirmar que Cuba “desenha e propõe soberanamente” as mudanças consideradas urgentes, Díaz-Canel buscou responder tanto às dificuldades concretas enfrentadas pela população quanto à narrativa externa que tenta apresentar a ilha como um “Estado falido”. O presidente cubano rejeitou essa leitura e denunciou que ela é vendida ao mundo ao mesmo tempo em que se intensificam pressões contra o povo cubano.

A crítica e a autocrítica, como afirmou Díaz-Canel, fazem parte da tradição política do governo cubano. Esse ponto é fundamental. Reconhecer erros e insuficiências internas não diminui a Revolução; ao contrário, fortalece sua capacidade de sobrevivência histórica. O verdadeiro pensamento revolucionário não se refugia em fórmulas congeladas. Ele enfrenta a realidade, identifica contradições e busca soluções com base no interesse nacional.

Nesse contexto, a decisão de avançar na abertura da economia deve ser compreendida como uma tentativa de ampliar capacidades produtivas. Cuba não está cedendo a pressões externas. Está buscando mecanismos próprios para respirar, produzir, comercializar e desenvolver-se sem pedir autorização a Washington.

Díaz-Canel fez questão de afirmar que as decisões não decorrem de negociações com os Estados Unidos. Cuba, disse ele, continua disposta a dialogar com respeito sobre todos os temas possíveis, como já demonstrou historicamente. Mas o diálogo entre nações soberanas não pode ser confundido com submissão, chantagem ou imposição unilateral de condições.

O presidente cubano atribuiu as dificuldades de aproximação entre os dois países a setores que sabotam qualquer tentativa de entendimento. Segundo ele, esses grupos espalham ameaças, vazam informações falsas, perseguem negociações e apostam na “opção perversa da asfixia” para provocar uma explosão social em Cuba.

A denúncia é grave porque expõe a natureza desumana do bloqueio. Não se trata de uma disputa abstrata entre governos. Trata-se de medidas que atingem o cotidiano de uma população inteira, dificultando operações bancárias, encarecendo importações, bloqueando a chegada de combustíveis, alimentos e medicamentos e punindo quem deseja investir ou comerciar com Cuba.

Díaz-Canel resumiu essa contradição ao afirmar: “Não se pode falar de liberdade enquanto se empurra de propósito um povo inteiro para o desespero por falta de recursos que hoje são vitais para a existência”. A frase desmonta o discurso daqueles que dizem defender o povo cubano enquanto apoiam políticas destinadas a tornar sua vida mais difícil.

Em outro trecho, o presidente dirigiu-se diretamente ao governo dos Estados Unidos: “Ao governo dos Estados Unidos dizemos, sem ódio, mas sem medo: se de verdade querem ajudar o povo cubano, deixem-nos viver!”. A força dessa declaração está em sua simplicidade. Cuba não exige privilégios. Exige o direito elementar de comerciar, comprar medicamentos, importar combustível, receber investimentos, obter créditos e manter relações normais com seus emigrados e com o mundo.

“Deixem Cuba mostrar ao planeta do que este povo é capaz quando não há obstáculos aos seus esforços para se levantar”, afirmou Díaz-Canel. É justamente aí que reside o núcleo político do momento atual. A Revolução Cubana não está diante de uma escolha entre resistir e mudar. Está diante da necessidade histórica de mudar para continuar resistindo.

As medidas anunciadas por Cuba expressam essa combinação entre firmeza e inovação. São decisões corajosas porque enfrentam simultaneamente dois desafios: a agressividade externa e os limites internos de um modelo pressionado por condições extraordinárias. Em vez de negar a realidade, o governo cubano afirma que pretende transformá-la a partir de suas próprias forças.

Esse é o sentido mais profundo da soberania. Não é isolamento. Não é recusa ao comércio, ao investimento ou ao diálogo. Soberania é poder decidir os termos da própria abertura, estabelecer prioridades nacionais e impedir que a crise seja usada como instrumento de rendição política.

A história de Cuba demonstra que a resistência, quando se torna criativa, pode produzir caminhos inesperados. Ao acrescentar medidas inovadoras à tradição de luta de seu povo, o país reafirma que a Revolução não pode ser reduzida a uma peça de museu nem a uma fórmula fechada. Ela precisa ser, como ensinou Fidel, expressão viva do momento histórico.

Por isso, a frase final de Díaz-Canel sintetiza a mensagem política do discurso: “Cuba não vai pedir permissão para existir nem entregará sua soberania”. Em tempos de bloqueio, crise e pressão internacional, essa afirmação não é apenas uma defesa nacional. É também um chamado à inteligência revolucionária, à criatividade política e à coragem de mudar sem deixar de ser Cuba.

(*) Jornalista, editor internacional, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do PCdoB e presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz

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