Da reação ao “século da humilhação” à construção da civilização ecológica, a modernização chinesa revela uma estratégia de longo prazo que atravessa diferentes regimes e gerações de lideranças, escreve Nilton Vasconcelos no Cebrach (Centro de Estudos Avançados Brasil China)
Por Nilton Vasconcelos (*) – O lançamento da coletânea Seis Perspectivas da Modernização Chinesa – e, em particular, da edição dedicada à Perspectiva Ecológica –, por iniciativa da Fundação Maurício Grabois, retoma uma temática que não deve ser tratada como novidade passageira, mas que segue despertando curiosidade renovada, como de resto ocorre com quase tudo o que diz respeito à China contemporânea. Este texto parte da hipótese de que a modernização chinesa não é um episódio recente, circunscrito ao mandato de Xi Jinping, e sim um processo iniciado há mais tempo, e que somente uma perspectiva de longo prazo permite compreendê-la como aquilo que realmente é – uma estratégia chinesa de desenvolvimento, deliberada, cumulativa e adaptada a cada conjuntura histórica, e não uma resposta emergencial ou um conjunto de metas de ocasião.
Para sustentar esse argumento, é necessário recuperar a trajetória do processo modernizador chinês e as referências que remontam às iniciativas de renovação e de rejuvenescimento da sociedade chinesa que antecedem em quase um século a fundação da República Popular.
A Modernização ao estilo chinês, formulada por Xi Jinping – entendida como grande rejuvenescimento da nação chinesa – organiza esse projeto em torno de seis perspectivas: Ecológica, Civilizatória, Histórica, Mundo, Valores e Democracia. Mas o tema da modernização esteve presente em vários períodos da história recente da China, desde o Império e a República, assumindo nova configuração a partir da Revolução de 1949 e, particularmente, na chamada Nova Era, com metas de desenvolvimento mais avançadas.
As modernizações pré-revolucionárias
Recuar ao século XIX é indispensável para compreender que o impulso modernizador chinês não nasce no socialismo, mas o antecede e o atravessa. O Movimento de Autofortalecimento (1861-1895) surge após as Guerras do Ópio (1839-1860), cujos efeitos foram devastadores: o governo imperial foi obrigado a ceder Hong Kong, abrir portos, pagar indenizações e admitir o comércio do ópio, o que produziu grave impacto sobre a saúde pública e intensa instabilidade social. Esse quadro inaugurou o chamado “século da humilhação”. A Rebelião Taiping (1850-1864), voltada contra as elites agrárias, o próprio império e a presença estrangeira, resultou na morte de vinte a trinta milhões de pessoas e aprofundou ainda mais a crise. Foi neste contexto que o Movimento de Autofortalecimento tomou como princípio a máxima “aprendizagem chinesa como essência, aprendizagem ocidental como aplicação”, numa tentativa de modernização da China que se traduziu na construção de arsenais, ferrovias, estaleiros, indústria militar e escolas técnicas.
Nova tentativa veio com a Reforma dos Cem Dias (1898), implementada após a derrota para o Japão e a perda de controle sobre Taiwan. Já nos estertores da Dinastia Qing, a reforma pretendia modernizar a educação e administração, desenvolver a indústria e a ciência, e promover uma reforma institucional mais ampla. A reação dos setores conservadores foi imediata: um golpe de Estado comandado pela imperatriz viúva Cixi, prendeu o imperador Guangxu e suspendeu as medidas modernizantes, evidenciando a fragilidade da base política para sustentar a transformação.
A Revolução de Xinhai (1911), liderada por Sun Yat-sen – revolucionário conhecido como fundador da República na China e seu primeiro presidente, ainda que por curto período –, integra essa mesma linhagem de movimentos modernizadores. As ideias de Sun Yat-sen, sistematizadas na obra “The International Development of China” (1922), configuram um plano ambicioso: milhares de quilômetros de ferrovias, grandes hidrelétricas, industrialização, construção de portos, projetos de irrigação e integração nacional. A derrubada da monarquia milenar e a instituição da república, contudo, não foram suficientes para alterar substancialmente o atraso econômico e político da sociedade chinesa.
Também o Movimento da Nova Cultura (1915) se inscreve nessa busca constante de modernização, e foi decisivo por criar o ambiente intelectual que favoreceu, em seguida, a difusão das ideias socialistas. Ganhou força entre os intelectuais da Nova Cultura a ideia de que o atraso chinês tinha raízes culturais, educacionais, e políticas, e não apenas econômicas ou técnicas. Defendiam que a ciência tivesse um papel central no fortalecimento nacional e para a educação na formação de capacidades técnicas e científicas. Esse período tem na Revolução de 1949 e na instalação da República Popular, o ponto de virada que inaugura um processo de novo tipo: a construção do socialismo como via para superar a pobreza, a fragmentação territorial e realizar a industrialização.
As quatro modernizações
Coube a Zhou Enlai, então primeiro-ministro, sistematizar em 1963-1964 – já no período socialista – a diretriz das Quatro Modernizações, num contexto de recuperação econômica após o Grande Salto Adiante, política de aceleração do crescimento iniciada sob a liderança de Mao Zedong em 1958 e cujos efeitos negativos haviam impactado severamente a produção. As medidas foram reafirmadas em 1975, no 4º Congresso Nacional do Povo, como objetivo central para promover a restauração da economia.
As Modernizações propostas por Zhou Enlai diziam respeito à melhoria da Agricultura, no âmbito do sistema das comunas populares; à reorganização e retomada de grandes projetos estatais para a Indústria; à reconstrução da base técnico-científica no campo da Ciência e Tecnologia, e ao fortalecimento militar em contexto revolucionário e de autossuficiência, na Defesa Nacional. Após a morte de Mao Zedong, em 1976, e o encerramento da Revolução Cultural, Deng Xiaoping retomou as Quatro Modernizações como pilar do novo rumo reformista, sintetizado na fórmula do “socialismo com características chinesas”. O objetivo era enfrentar as paralisações que haviam atingido a indústria e o sistema científico e educacional. As quatro áreas permaneciam nominalmente as mesmas – Agricultura, Indústria, Ciência e Tecnologia e Defesa Nacional –, mas seu conteúdo se transformou substancialmente: descoletivização parcial da agricultura mediante o Sistema de Responsabilidade Familiar; reforma das empresas com maior autonomia administrativa e abertura ao capital estrangeiro, a inovação como motor do crescimento e base para competitividade internacional; e a profissionalização e modernização tecnológica das Forças Armadas.
É relevante notar a diferença de horizonte entre as gerações: quando Zhou Enlai afirma, em 1963-1964, que ciência e tecnologia constituem uma das quatro prioridades da modernização, ele retoma uma preocupação já presente desde o Movimento da Nova Cultura, em 1915. Mas há uma inflexão importante. Para os intelectuais de 1915, a modernização passava, em grande medida, pela aproximação com modelos ocidentais. Para Zhou Enlai, para Deng Xiaoping e, mais tarde, para Xi Jinping, a modernização deveria incorporar ciência e tecnologia modernas sem renunciar à autonomia política e à continuidade da civilização chinesa. É essa diferença — entre modernizar-se ocidentalizando-se e modernizar-se preservando a autonomia civilizacional — que distingue as fases posteriores a 1949 das tentativas anteriores, e que permite afirmar que o conceito de modernização, na experiência chinesa, começa a amadurecer quase um século antes da fundação da República Popular.
Xi Jinping e o “Grande rejuvenescimento da nação chinesa”
A formulação das novas metas da Modernização ao estilo chinês foi aprovada no XX Congresso Nacional do PCCh, estruturada em torno do fortalecimento da segurança nacional, do desenvolvimento de alta qualidade, da inovação tecnológica, e da política de prosperidade comum. Essas metas se desdobram nas seis perspectivas que dão nome à coletânea cujo lançamento motiva este texto: a perspectiva Ecológica, que defende a coexistência harmoniosa entre ser humano e natureza, seguindo um caminho de desenvolvimento verde; a Civilizatória, que defende o respeito pela diversidade das civilizações mundiais e o intercâmbio cultural mútuo; a Histórica, que enfatiza a autossuficiência e a confiança no próprio desenvolvimento; a perspectiva de Mundo, que busca uma perspectiva global e a harmonia entre as nações, propondo a construção de uma comunidade com futuro compartilhado para a humanidade; de Valores, que coloca o povo no centro do processo modernizador, com a prosperidade comum como objetivo fundamental; e de Democracia, que promove a democracia popular, assegurando institucionalmente a posição do povo como protagonista do país. Embora tratem de dimensões distintas, essas seis perspectivas compartilham um mesmo pressuposto: a modernização deixa de ser concebida apenas como crescimento econômico e passa a abranger simultaneamente desenvolvimento material, continuidade civilizacional, sustentabilidade ecológica, fortalecimento institucional e inserção internacional.
É na perspectiva ecológica que a lógica de longo prazo da modernização chinesa se manifesta com maior clareza. O pensamento de Xi Jinping sobre civilização ecológica foi sintetizado, em 2018, nas chamadas “Dez Persistências”, que correspondem as dez lições aprendidas pelo Partido Comunista Chinês ao longo de seu primeiro século de existência. Essa formulação resulta da convergência entre a tradição marxista, elementos da filosofia clássica chinesa, contribuições da economia ecológica contemporânea e uma concepção desenvolvimentista de planejamento estatal.
A construção da civilização ecológica é apresentada, nesse arcabouço, como elemento constitutivo daquilo que Xi Jinping chama de “uma nova forma de civilização humana” — proposta que busca articular tradição cultural chinesa, socialismo contemporâneo e sustentabilidade ecológica como alternativa ao paradigma moderno de origem ocidental.
Diferentes fases de uma estratégia
As sucessivas agendas de modernização na China podem ser interpretadas como diferentes respostas históricas a um mesmo problema de fundo: como preservar a continuidade da civilização chinesa em um mundo em permanente transformação. Os movimentos de modernização, desde o século XIX, visaram sucessivamente superar os efeitos da Guerra do Ópio, a derrota na guerra contra o Japão, os dilemas do império em declínio, a superação da monarquia e a construção da república, as consequências do Grande Salto Adiante e, mais tarde, os efeitos da Revolução Cultural. As modernizações conduzidas sob Xi Jinping, encontram a China com novos dilemas, entre eles a desaceleração econômica, crise ambiental, excesso de capacidade industrial, aumento da desigualdade e crise imobiliária em gestação. Não mais diante de uma crise de sobrevivência nacional, mas dos desafios próprios de uma economia já industrializada e de renda média-alta.
O primeiro período corresponde à modernização como resposta ao atraso e à crise, estendendo-se do século XIX até o início do século XXI — um arco que vai do Movimento de Autofortalecimento às reformas de Deng Xiaoping, sempre voltado a reagir a ameaças externas, derrotas militares ou colapsos internos. Na segunda fase a modernização deixa de ser primordialmente reativa para se tornar propositiva, orientada não apenas a alcançar os países desenvolvidos, mas a oferecer, no plano internacional, um modelo alternativo de desenvolvimento e de relação entre sociedade, Estado e natureza.
O fio condutor ao longo desse largo período é o fortalecimento do Estado, a busca da soberania nacional, a valorização do conhecimento científico, a industrialização como base da autonomia, a adaptação institucional às condições históricas, e a preservação da continuidade civilizacional.
Conclusão
A trajetória recuperada neste texto — do Movimento de Autofortalecimento às Dez Persistências sobre civilização ecológica, passando pelas Quatro Modernizações de Zhou Enlai e Deng Xiaoping — permite sustentar a tese central aqui defendida: a modernização chinesa em curso não é um programa de governo circunscrito a um mandato, tampouco uma resposta pontual a pressões conjunturais. É antes a fase mais recente de um processo que atravessa mais de século e meio de história chinesa.
A modernização ao estilo chinês propõe que seja possível incorporar ciência, tecnologia e desenvolvimento de alto nível sem abdicar da continuidade civilizacional — e, mais do que isso, propõe transformar essa síntese em contribuição original ao debate internacional sobre desenvolvimento e sustentabilidade. A Perspectiva Ecológica expressa o pensamento chinês contemporâneo enquanto resposta a uma pergunta que, como vimos, atravessa toda a história moderna do país — como preservar a continuidade de uma civilização milenar diante das transformações do mundo contemporâneo.
Se as primeiras ondas da modernização chinesa buscaram evitar o declínio nacional e recuperar a soberania do Estado, a modernização ao estilo chinês pretende acrescentar um objetivo novo: transformar a experiência histórica da China em referência para um modelo alternativo de desenvolvimento no século XXI. Modernizar-se preservando a autonomia civilizacional em contraposição a modernizar ocidentalizando-se. É nessa passagem da recuperação nacional para a ambição civilizacional que reside, talvez, a principal novidade da atual etapa da modernização chinesa.
Referências
JINPING, Xi. Fortalecendo a China e impulsionando seu rejuvenescimento por meio da modernização. Publicado originalmente em chinês na revista teórica do PCCh Qiushi, edição nº 1/2025. Disponível em: https://en.qstheory.cn/2026-06/17/c_1187341.htm.
PCCh. Resolução do Comitê Central sobre as principais conquistas e a experiência histórica do partido ao longo do último século. Adotada na Sexta Sessão Plenária do 19º Comitê Central do Partido Comunista da China, 11 de novembro de 2021. Qiushi. Disponível em: https://en.qstheory.cn/2021-11/16/c_682072.htm
WOOD, Michael. História da China: o retrato de uma civilização e de seu povo. São Paulo: Planeta do Brasil, 2022. 624 p.
YONGSHENG, Zhang. Perspectiva ecológica da modernização chinesa. São Paulo: Editora Anita. Fundação Maurício Grabois, 2026.
(*) Nilton Vasconcelos é Doutor em Administração Pública, diretor do Cebrach. Foi secretário do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte do Governo do Estado da Bahia.