GEOPOLÍTICA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Camarada Professor Lejeune 

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Lejeune soube, como poucos, aliar o rigor da ciência à ternura da solidariedade humana, a análise realista dos fatos, que invariavelmente se afiguram duros, com o otimismo histórico, escreve o dirigente comunista José Reinaldo Carvalho

Por José Reinaldo Carvalho (*) – A notícia do falecimento do querido professor, sociólogo e analista geopolítico Lejeune Mirhan ecoou como um golpe doloroso no coração daqueles que dedicam suas vidas à transformação social. Sua partida física deixa um imenso vazio. Para os comunistas brasileiros, seus inúmeros alunos, seguidores nas redes, leitores e companheiros de jornadas, o desaparecimento de Lejeune representa a perda de uma mente brilhante. Ele soube, como poucos, aliar o rigor da ciência à ternura da solidariedade humana, a análise realista dos fatos, que invariavelmente se afiguram duros, com o otimismo histórico.

Mais do que um intelectual respeitado, Lejeune Mirhan foi um militante de convicções inabaláveis, cuja trajetória confunde-se com a história das lutas progressistas no Brasil. Desde os anos da juventude, quando despontou como liderança estudantil corajosa, ele escolheu o lado dos oprimidos. O jovem estudante transformou-se no intelectual orgânico que, ao longo de mais de cinquenta anos de filiação ininterrupta ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), jamais se afastou de seus princípios. Sua militância também ganhou corpo e alma nas trincheiras do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), atuando como membro do Conselho Nacional e estendendo seus braços solidários para além das fronteiras do país.

Como professor de sociologia e ciência política, Lejeune transformava as salas de aula em espaços de emancipação mental e formação de consciência crítica. Ele compreendia que o conhecimento acadêmico ganha real sentido quando colocado a serviço do povo e da libertação social. Escritor prolífico e incansável, sua mente inquieta deu vida a mais de 20 livros publicados, obras que hoje se constituem como bússolas teóricas fundamentais para compreender as complexidades do nosso tempo. No jornalismo internacional, sua atuação era igualmente marcante. Como âncora do Canal da Geopolítica, colunista do Brasil 247 e comentarista da TV 247 nos programas “Bom Dia 247” e “O Mundo Como Ele É”, Lejeune traduzia a geopolítica com uma clareza cirúrgica e uma suavidade pedagógica contagiante, desarmando preconceitos e iluminando verdades ocultadas pela mídia a serviço dos interesses das classes dominantes e das potências imperialistas.

No cerne de suas formulações estava o debate sobre a transição geopolítica contemporânea. Com absoluto rigor científico e munido de dados irrefutáveis, Lejeune destacou-se por demonstrar que a multipolaridade não é uma promessa vaga para o futuro, mas uma realidade concreta e incontornável. Ele rechaçava as visões céticas que enxergavam na quebra da hegemonia unilateral estadunidense um processo distante ou uma transição histórica incerta. Sob sua ótica, a consolidação desse mundo multipolar — impulsionada pelo papel estratégico e soberano de nações como China, Rússia, Irã, Brasil e outras potências emergentes — está intrinsecamente ligada ao avanço da luta anti-imperialista e pelo socialismo. Para Lejeune, o declínio do domínio unipolar abre as frestas históricas necessárias para que os povos conquistem sua verdadeira autodeterminação, criando o solo fértil em que a transição rumo a uma sociedade socialista pode prosperar.

Essa mesma visão geopolítica alimentava o seu internacionalismo convicto e apaixonado. Defensor histórico e incansável da causa palestina, Lejeune erguia sua voz com bravura singular para combater o genocídio e denunciar as injustiças contra aquele povo, transformando sua escrita em escudo contra a opressão. Seu entusiasmo estendia-se também à Cuba socialista, cujo exemplo de resistência e dignidade ele celebrava como um farol para a humanidade. No plano nacional, expressava apoio entusiasmado ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, identificando na liderança do mandatário um elo fundamental e insubstituível para a consolidação da democracia, da soberania nacional e do progresso social no Brasil e para a inserção altiva do país no cenário internacional.
Polemista nato por amor às causas populares, Lejeune sustentava debates com imensa coragem. Ele refutava, sem meias palavras, as teses conciliadoras que buscavam pactuar com as classes dominantes ou se render aos ditames do imperialismo.

A tristeza que nos comove é suavizada pela certeza de que o legado de coerência, combatividade e entusiasmo revolucionário de Lejeune Mirhan permanecerá pulsando forte dentro de cada um de nós que continuamos a lutar por um mundo socialista. Enquanto houver injustiça, haverá alguém carregando sua bandeira. Camarada Professor Lejeune Mirhan, presente! A luta continua!

(*) Jornalista, editor internacional, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do PCdoB e presidente do Cebrapaz

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