Condenado novamente na ONU, o bloqueio a Cuba expõe a coerção dos EUA e a resistência de um povo que se recusa a renunciar à soberania, escreve o dirigente comunista José Reinaldo Carvalho
Por José Reinaldo Carvalho (*) – O bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos a Cuba é uma política odiosa que procura fomentar dificuldades e restrições para toda uma população na tentativa de submissão nacional. Sua nova condenação na Assembleia Geral das Nações Unidas reafirma a legitimidade da resistência cubana e expõe a persistência de uma potência que pretende impor sua vontade sobre outro país. A resolução pelo fim do bloqueio recebeu 130 votos favoráveis, diante de 17 contrários e 25 abstenções. Ausentaram-se 21 países.
O resultado representa uma vitória expressiva de Cuba. Mas também revela a distância entre o pronunciamento da maioria dos países e a incapacidade das instituições internacionais para fazer cessar uma política imposta por Washington. O governo estadunidense insiste em preservar medidas que atingem a vida cotidiana dos cubanos e, por seu alcance extraterritorial, condicionam também as relações da ilha com outras nações.
Essa pretensão sintetiza o unilateralismo imperialista: os Estados Unidos atribuem a si mesmos o direito de determinar com quem outros países podem negociar e quais obstáculos devem enfrentar por manter relações com Cuba. A soberania nacional fica subordinada às decisões de Washington. A igualdade entre as nações, princípio indispensável à convivência internacional, é atropelada pelo exercício da força bruta.
O objetivo político dessa engrenagem é sufocar a Revolução Cubana, desgastar suas bases sociais e converter a privação em pressão pela rendição. O imperialismo estadunidense procura obter pelo estrangulamento econômico a submissão que o povo cubano se recusa a aceitar. A população torna-se alvo de uma estratégia que aposta no sofrimento para produzir uma mudança política tramada desde o exterior.
O bloqueio é a todos os títulos indefensável. Nenhuma divergência com o governo cubano justifica impor restrições a toda uma sociedade.
O presidente Miguel Díaz-Canel denunciou em termos contundentes a pressão dos Estados Unidos para que países tomassem uma posição contrária a Cuba no debate e na votação na ONU. Mas fracassaram. “O mundo se manifestou mais uma vez de forma esmagadora contra o bloqueio, mesmo diante da pressão e chantagem mais flagrantes dos EUA para alterar o rumo desta votação”, afirmou o líder cubano.
À luz dessa denúncia, os votos contrários, as abstenções e as ausências merecem uma crítica política contundente. Embora o comportamento de cada delegação, isoladamente, não explicite sua motivação, essa tomada de posição tem objetivamente a intenção de enfraquecer a condenação ao bloqueio. Nesse sentido político, representa uma capitulação diante da pressão estadunidense: por adesão, por recuo ou por omissão, determinados países deixaram de enfrentar uma injustiça que exigia uma posição inequívoca.
As responsabilidades têm graus diferentes. Votar contra o fim do bloqueio significa sustentar sua continuidade. Abster-se evita condená-lo. Ausentar-se deixa de somar uma voz à defesa do país atingido. Diante do custo humano dessa política, a cedência à chantagem de Washington cobra um preço que recai sobre os cubanos.
É nesse cenário que se destaca o heroísmo do povo de Cuba, cuja resistência é reconhecida e admirada pelos povos do mundo, que em diferentes latitudes expressam solidariedade, reconhecimento que vale como estímulo a lutar pelo direito de ser livre e escolher de acordo com suas convicções e tradições históricas seu sistema político e o caráter de sua sociedade.
A resistência política do governo revolucionário de Cuba também merece reconhecimento. Sustentar a soberania sob tamanha pressão e manter a denúncia internacional do bloqueio demonstram uma tenacidade e determinação que Washington não conseguiu quebrar. A permanência dessa posição impede que a coerção alcance seus objetivos.
A chancelaria cubana ocupa um lugar central nessa luta. O apoio de 130 países é um resultado diplomático expressivo e evidencia a excelência de uma atuação capaz de reunir uma maioria ampla em torno de uma causa justa. A diplomacia de Cuba mantém diante do mundo uma questão que seus adversários prefeririam reduzir ao silêncio: o direito de um país existir sem ser economicamente sufocado por outro.
A votação não encerra o bloqueio, mas renova sua condenação política. Washington conserva os instrumentos de pressão; Cuba reafirma a legitimidade de sua causa. O povo cubano, seu governo revolucionário e sua diplomacia demonstram que a desproporção de poder não obriga uma nação a renunciar à própria dignidade. A vergonha pertence a quem impõe o cerco e a quem o ampara.
(*) Jornalista, editor internacional, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do PCdoB e presidenge do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz)