GEOPOLÍTICA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Com ocupação israelense e sem o Hezbollah, não haverá paz no Líbano

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Prorrogação do cessar-fogo expõe objetivos expansionistas de Israel e cumplicidade dos Estados Unidos, afirma o dirigente comunista José Reinaldo Carvalho 

Por José Reinaldo Carvalho (*) – Uma trégua em meio a uma guerra é sempre um fato positivo, principalmente quando se trata de um conflito que se tornou um genocídio perpetrado pelo exército agressor, como ocorre na ofensiva militar israelense contra o Líbano.

Mas é forçoso reconhecer que a prorrogação do cessar-fogo por três semanas entre Líbano e Israel não resolve o impasse central do conflito: a ausência de um acordo que inclua o Hezbollah como ator político e militar legítimo e a persistência da ocupação territorial por Israel  enquanto persistir a ocupação territorial. O prolongamento da trégua, embora possa reduzir temporariamente a violência, apenas adia uma questão estrutural que segue sem solução. A exigência de  desarmamento e até de aniquilação do Hezbollah, vocalizadas por Israel e os Estados Unidos constituem uma proclamação de continuidade da guerra, quando vencer o prazo do cessar-fogo.  

O Estado libanês não tem condições de conduzir uma negociação capaz de garantir soberania plena e segurança. Não tem força, poder de barganha nem capacidade para dissuadir um inimigo como Israel, em cumplicidade com os Estados Unidos. A trágica experiência histórica do Líbano já demonstrou que a  única dissuasão possível provém da Resistência e esta é protagonizada pelo Hezbollah.

Essa constatação expõe o limite de qualquer tentativa de marginalizar o Hezbollah no processo político. Historicamente, o grupo consolidou sua legitimidade interna justamente por sua atuação contra a ocupação israelense. Desde o fim da guerra civil, quando outras milícias foram desarmadas, o Hezbollah manteve suas armas e assumiu o comando da resistência, credenciando-se como uma força de libertação nacional. 

A atual prorrogação do cessar-fogo ocorre em um contexto de devastação: milhares de mortos, cidades destruídas e mais de um milhão de deslocados. Ainda assim, Israel mantém a agressão militar e proíbe o retorno de civis para o sul do Líbano, o que configura crime de guerra. Nesse cenário, exigir o desarmamento do Hezbollah sem garantir o fim da ocupação equivale a retirar do Líbano seu principal instrumento de resistência e luta. 

A prorrogação do cessar-fogo, portanto, deve ser vista mais como uma pausa tática do que como avanço estratégico. Sem a inclusão do Hezbollah em qualquer acordo e sem o reconhecimento de seu papel enquanto força de resistência, a negociação não levará a resultado algum. 

Enquanto houver território libanês sob controle israelense, a lógica da resistência continuará a encontrar respaldo social e político, especialmente entre comunidades diretamente afetadas pelo conflito. Nenhuma ilusão deve ser alimentada a esse respeito. A mutilação territorial do país, a ocupação permanente por Israel implicará inevitavelmente uma guerra nacional e popular prolongada. 

A paz duradoura não pode ser construída sobre a violação da soberania nacional e a mutilação da integridade territorial.  Assim, a exclusão de um ator político, social e militar central, como o Hezbollah, manterá o país em um prolongado estado de guerra.  A solução verdadeira exige o reconhecimento pelas forças políticas internas e a chamada comunidade internacional de que a verdadeira independência libanesa e a paz duradoura passam necessariamente por um entendimento que inclua o Hezbollah e aceite sua existência como força política popular e organização armada . 

Sem isso, o cessar-fogo ampliado será apenas mais um intervalo entre ciclos de violência.

(*) Jornalista, editor internacional, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do PCdoB e presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz)

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