Por José Reinaldo Carvalho (*)
Os comunistas, em luto, inclinamos nossas bandeiras em homenagem ao camarada Renato Rabelo.
Desde o meu primeiro contato com o camarada Renato, em janeiro de 1979, quando ele se encontrava exilado em Paris, e eu seguia para a Albânia em missão partidária, tivemos uma longa convivência. O mês e meio que permaneci hospedado em sua casa foi um período influente em minha trajetória política e pessoal.
Naqueles dias, reuníamo-nos também com os camaradas João Amazonas e Diógenes Arruda, ambos igualmente no exílio. Nossas conversas se estendiam por horas a fio, atravessando os temas mais urgentes da realidade brasileira. Falávamos da luta contra a ditadura, que ganhava novo fôlego com o avanço da campanha pela Anistia e a Constituinte livremente eleita, e analisávamos o cenário internacional, especialmente as profundas divergências no movimento comunista. O Partido mantinha posições firmes contra o revisionismo e o oportunismo de direita, e esses debates reforçavam ainda mais nossa convicção na justeza do caminho adotado.
Durante estes longos anos, compartilhamos uma convivência intensa na direção do Partido. Uma jornada tão longa forja laços indestrutíveis de amizade e camaradagem, construídos na dedicação à causa do povo brasileiro e dos povos do mundo. Foram décadas de batalhas cotidianas, de conquistas acumuladas passo a passo e da certeza de que a transformação estrutural da sociedade virá com a conquista do socialismo.
Nossa relação tornou-se ainda mais próxima a partir de 2001, quando Renato foi eleito presidente do Partido. Coube a ele a enorme responsabilidade de conduzir a organização na ausência do líder histórico, João Amazonas, formulador da linha política e principal referência ideológica. Amazonas liderara, ao lado de Maurício Grabois, Pedro Pomar e Carlos Danieli, a reorganização do PCdoB em face da deriva liquidacionista no antigo PCB. Renato, ao assumir a presidência do Partido, herdava este legado de luta ideológica contra o revisionismo.
Nesse período, nossa interação foi constante, no âmbito da divisão de tarefas do Secretariado Nacional. Ele na presidência, eu na vice-presidência, compartilhávamos avaliações e decisões diariamente. Este convívio foi uma das minhas universidades, uma escola de formação política e humana.
Também realizamos juntos importantes tarefas internacionalistas, viagens de trabalho voltadas para o fortalecimento do movimento comunista internacional e a inserção do nosso Partido entre países socialistas e partidos comunistas relevantes. Foi durante uma viagem histórica que fizemos a Pequim, no ano 2.000, à frente de uma delegação integrada também por Haroldo Lima, que retomamos o contato com o Partido Comunista da China.
Sob sua liderança, o Partido se empenhou em atualizar o programa, levando em conta as mudanças no cenário internacional e as novas realidades econômicas e sociais do Brasil. Ele defendeu a “nova luta pelo socialismo”, uma formulação que busca adaptar a estratégia dos comunistas às condições do século 21, tomando em consideração a necessidade de construir alianças amplas, incluindo a burguesia nacional, para enfrentar o imperialismo e o neoliberalismo. Propugnou também uma estratégia e tática de acumulação de forças dentro do marco democrático, promovendo inclusive a participação em governos progressistas para promover reformas que permitam pavimentar caminho para a transição ao socialismo.
Um ponto central nas opiniões de Renato é a ênfase no desenvolvimento nacional e na defesa da soberania. Ele sustentou a opinião de que a defesa de um projeto nacional de desenvolvimento é fundamental para criar as condições objetivas para o socialismo.
Renato teve o mérito de preservar e fortalecer a unidade política e de ação do coletivo comunista em uma nova etapa da vida nacional, inaugurada com a eleição de Lula em 2002. Foi dele a formulação da tática política que orientou o Partido naquele novo ciclo, estendido também aos mandatos da ex-presidenta Dilma Rousseff. Além de dirigente partidário com elevadas responsabilidades organizativas, revelou-se um líder político nacional, um dos artífices da construção da frente única democrática, progressista, popular e anti-imperialista. Foi fecunda a sua contribuição em todas as campanhas de Lula e corresponsável pelos êxitos dos governos Lula e Dilma.
As conquistas alcançadas pelo povo brasileiro nesse período são fruto também do seu talento político e da sua capacidade de articulação. Por isso, seu nome é reconhecido e respeitado por amplos setores da vida política nacional.
Numa época de sensibilidades variadas, o camarada Renato foi também o artífice da convergência interna, liderando a formação de uma inteligência coletiva, empenhando-se para aproximar posições divergentes, evitando o fracionamento que levaria à desintegração. Sem tal método de direção, seria impossível enfrentar surtos de oportunismo e liquidacionismo.
Atuando com perspicácia, Renato nos deixou um legado político, que permanecerá vivo, inspirando as novas gerações de militantes.
Dotado de empatia, os ideais de Renato se ancoravam também em nobres sentimentos. Os duros tempos da clandestinidade, em que foi heroica a luta do nosso povo contra a ditadura militar-fascista, comandada por generais que se comportaram como sicários do imperialismo e traidores da Pátria; as aturadas batalhas ideológicas que o nosso Partido enfrentou contra os inimigos internos e externos que tentaram apagar sua essência revolucionária e identidade; as agruras e privações impostas pelo ambiente de terror que ceifava a vida de militantes e dirigentes, forjaram homens e mulheres de têmpera, adicionando-lhes ao caráter militante a generosidade própria de quem, ao ser camarada, também cultiva amizades.
Os que sucedem a estes reafirmam, em memória de Renato, fruindo da experiência compartilhada, o compromisso de que nunca falte o combustível moral para levar adiante a bandeira sempiterna do socialismo e do comunismo, missão maior do Partido, para a qual é necessário manter-se indormido na causa, construindo sem pestanejar, mesmo nas piores adversidades, um Partido Comunista autêntico, sem consentir jamais em sua desfiguração. Um partido em cuja vida interna prevaleçam também a camaradagem e a amizade sinceras, desinteressadas, acima de pretensões de carreira, fama, protagonismo ou “poder” pessoal.
O camarada fará imensa falta. Honra e glória à sua memória!
(*) José Reinaldo Carvalho, membro do Comitê Central e da Comissão Política Nacional do PCdoB. Foi vice-presidente do Partido durante o primeiro quadriênio da presidência de Renato Rabelo